sexta-feira, 12 de junho de 2020

Solstício

Escrevo sem as lentes para me amparar com a miopia. Escrevo assim porque a imagem de voltar à escrita me emociona e eu já posso sentir o formigamento que antecede as lágrimas. Eu nem sei o que vai sair. Escrevo neste lugar que não é sala, não é quarto, não é cômodo, mas acomoda minha rotina. Os últimos meses tenho passado aqui, preenchendo a acentuação da minha coluna com uma almofada fina, usando um volume único de uma gramática jamais consultada para deixar o computador à altura dos olhos - os meus e os outros. Eu nem sei quantos me veem, mas consigo estimar o quanto os meus  olhos deixam de captar: são dias de transição permanente - como o outono, que deixa de ser verão para ser inverno - e demora. O tempo passa em outro ritmo, mas sei que é o mesmo tempo de antes, porque os grilos continuam emitindo sua sonora presença e mais um dia se encerra. Eu sei que ainda sou eu porque minha vontade de ler Clarice permanece, porque ainda me encontro quando estou só, quando guardo os dispositivos móveis na gaveta, sobre os rascunhos encadernados. Há pouco quis arriscar algumas linhas e ainda estou aqui, arriscando... e deixando de riscar alguns itens das tarefas diárias. Devo continuar? Por quê? Para quê? Sei que ainda sou eu, mas minhas vontades foram descuidadas porque precisei cuidar de outras vontades - as maiores, as donas, as determinadas. Nesses últimos dias, dias finais de outono, vigio a transição. Espero as noites mais longas e os dias mais curtos, o cinza e a umidade do ar que penetra nas páginas amareladas do meu livro de fábulas. Espero o solstício - o não movimento. 
Coloco as lentes, por fim.
Há pausa.
A pausa.
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