sábado, 15 de fevereiro de 2020

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis

A primeira edição de Úrsula é de 1859. Na época, a autora, Maria Firmina dos Reis, assinou com o pseudônimo de "Uma maranhense". De acordo com estudos recentes, esse romance pode ter sido o primeiro a ser escrito por uma mulher no Brasil ou, pelo menos, no Maranhão, além de também ser considerado o primeiro romance abolicionista brasileiro.

A estreia da romancista foi modesta, mas de extrema relevância para o cenário nacional: nossa literatura era monopolizada por uma elite composta por homens brancos e bacharéis. Portanto, Úrsula desde sua primeira edição rompe barreiras nesse contexto marcado pela exclusão.

Durante a leitura da obra, notamos uma narrativa ultrarromântica, característica da estética literária vigente, com uma construção singular de personagens, especialmente os escravizados. Diferente de outros clássicos brasileiros, Firmina desenvolve personagens com uma consciência que os protagonistas não possuem. Ainda que as mulheres e os homens negros presentes na narrativa não sejam centrais, eles são desenvolvidos a partir de um ponto de vista interno, extremamente sensível e fiel à narrativa oculta da escravidão no Brasil. 

Tal questão pode ser notada a partir das falas da mãe Suzana, uma senhora extremamente infeliz e nostálgica, que ainda se recorda de sua captura na África, da família que foi obrigada a abandonar e da vida sofrida como mulher negra escravizada no Brasil. Túlio, personagem também escravizado, expõe as injustiças consequentes da escravidão. No decorrer da narrativa, ambos refletem sobre a condição em que vivem, sobre o sistema escravista, bem como os mandos e desmandos de seus senhores.

O livro apresenta dois triângulos amorosos. O primeiro é composto por Adelaide, Tancredo e seu pai. Após desposar Adelaide, o pai de Tancredo obriga o jovem apaixonado a viajar para uma missão importante, prometendo que, após um ano, ele poderia se casar com a moça. No entanto, quando o noivo retorna, encontra um cenário impensável: sua mãe está morta e seu pai casou-se com Adelaide. 

Destruído, Tancredo vai embora e seu destino muda mais uma vez quando ele é salvo por Túlio, um homem escravizado que leva o jovem para a casa de sua senhora. Logo os dois tornam-se amigos e o protagonista alforria Tulio, estabelecendo entre eles uma relação de gratidão que permanece até o fim de suas vidas. 

O tempo que Tancredo ficou hospedado na casa de Luiza B., enquanto se recuperava do acidente, foi o suficiente para que o rapaz se apaixonasse perdidamente por sua cuidadora, a jovem Úrsula. O amor dos dois torna-se cada vez mais latente, até que Tancredo, completamente recuperado, pede a mão de Úrsula à sua mãe, Luiza B.

Tudo caminha bem até que o comendador P., tio de Úrsula, é tomado por uma paixão pela sobrinha e a a obriga a se casar com ele. Temos, então, a formação do segundo triângulo amoroso, formado por Tancredo, Úrsula e seu tio. A paixão súbita do comendador será fatal para os protagonistas e determinará o futuro das personagens.

Apesar de não ser fã da estética literária romântica, indico o livro a todas e a todos que acompanham meu blog. Estamos falando de uma narrativa escrita por uma mulher negra, professora e nordestina que, com o pseudônimo de "Uma maranhense", penetrou as camadas finas da bolha literária, formada exclusivamente por homens brancos e pertencentes à elite brasileira, e tornou-se a primeira romancista do nosso país.

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