sábado, 25 de janeiro de 2020

O barco

Um professor muito querido e pragmático me escreveu: Ana, está na hora de conduzir o barco. Eu li essa frase e instantaneamente imaginei sua mão em meu ombro e seus olhos por trás das lentes me fitando. Antes de conduzir o barco, suas palavras me acalentaram, como a neblina da serra que anuncia o litoral. E me percebi pensando: durante todos os meus vintes - e antes, eu estava no barco. Eu observei uma variedade imensa de barqueiros enfrentando o mar, o sol, o frio, os viajantes. Eu admirei boa parte deles, especialmente aqueles que não se cansavam com as minhas infindáveis perguntas e também os que confiavam um dos remos a mim. Até me apaixonei por um pescador que, enquanto remava, falava de si e de suas aventuras no mar... e continuei viajando, caminhando pela areia, sonhando com o barquinho... 

Até que a anunciação chegou e eu senti medo do mar. Como poderia entrar com tantos riscos? Teria sido imprudente todo esse tempo? Mas está na hora, meu professor me lembrou. Está na hora de conduzir o barco.

...

Não consigo mais enxergar a praia. A imensidão azul de uma vida inteira.

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