quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Se eu fosse eu, Clarice


Eu me certifico de todos os lugares onde deixei papéis avulsos para manter uma distância do questionamento de Clarice. Mesmo assim, sua prosa me persegue. Eu a ouço perguntar “se você fosse você, como seria e o que faria?”. E não me sinto bem.

“Se eu fosse eu” parece o maior dos mistérios – e o mais tentador. Eu experimentei mover a mentira que me acomodara como sugerido pela autora e o cenário que visualizei me causou mal estar. Essas linhas não revisadas são a bile, último ato antes de me esgotar por completo.

Não quero mais pensar, mas “se eu fosse eu”, a minha aparência seria outra e meus amigos não me reconheceriam. A minha voz seria ouvida em uma mesa de bar porque eu falaria tão alto e gargalharia mais alto ainda. Se eu fosse eu, todos saberiam a cor dos meus olhos.

Se eu fosse eu, a minha dor não poderia mais ficar escondida. No entanto, quem é que suportaria a ausência dos disfarces? Há um abismo que precisa ser mantido. Estou certa de que ocultar a dor é uma forma de desviar a atenção do vazio que existe em mim. Se eu fosse eu, haveria uma urgência de senti-la – e eu tenho medo.

Passados esses primeiros devaneios, certifico-me dos lugares onde guardei os papéis, porque se eu fosse eu, eu nem escreveria.

E escrever, curiosamente, é o que mais me aproxima do entendimento que tenho de quem eu sou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário