domingo, 24 de novembro de 2019

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

Imagine viver em um mundo onde a felicidade pode ser adquirida em pequenas cápsulas. Neste mesmo lugar, as pessoas têm segurança, desejam apenas o que podem ter, nunca adoecem, não temem a morte, não vivem paixões avassaladoras ou a velhice, não têm pais e mães, em suma, uma sociedade estável. Este, meus caros, é o Admirável Mundo Novo, imaginado pelo escritor inglês Aldous Huxley.

Publicado em 1930, Huxley afirmou no prefácio que este é um livro sobre o futuro. Aliás, o futuro da humanidade intrinsecamente ligado ao avanço da ciência e da forma como os estudos da biologia, da fisiologia e da psicologia afetarão os seres humanos. Nesta obra, o progresso possibilita que um embrião, ou melhor, um ovo bokanovskizado dividida-se em noventa e seis germes, e cada um deles tornar-se-á um embrião, e em cada embrião, um adulto completo. Temos, então, homens e mulheres padronizados, uniformes. Incrível, não?

- Noventa e seis gêmeos idênticos fazendo funcionar noventa e seis máquinas idênticas! - Sua voz estava quase trêmula de entusiasmo. (p.33)

O progresso também possibilitou a divisão da sociedade em castas. Na Sala de Predestinação Social, há o condicionamento dos bebês que serão divididos entre Alfas, Delta-Menos, Ípsilons, dentre outras categorias. Desde pequenos, todos são socializados para que possam exercer funções específicas de suas castas. Além disso, eles recebem uma quantidade de pseudossangue e de oxigênio de acordo com seu lugar dentro da sociedade. Quanto menor a casta, menos oxigênio se dá. Este condicionamento tem uma finalidade: fazer as pessoas amarem o seu destino social; amar aquilo que são obrigadas a fazer. Desse modo, não há rebeldia. Fascinante!

Neste contexto, Bernard, um psicólogo Alfa-Mais, sente-se um pária dentro de sua própria casta, excluído entre os seus pares. Ele era diferente dos outros - talvez tenha sido o excesso de álcool injetado no sangue quando ainda era um bebê. Além disso, era desrespeitado pelos outros Alfa-Mais por não parecer um Alfa-Mais. Seu único amigo na casta era Helmholtz, Engenheiro em Emoção que tinha o dom de criar slogans e versinhos hipnopédicos. Helmholtz era o oposto de Bernard: era um Alfa-Mais até o último fio de cabelo. Entretanto, ele também se sentia sozinho. 

O que esses dois homens tinham em comum era a consciência de serem individualidades. (p. 116)

Bernard gostava de Lenina, uma jovem bastante popular em sua casta. Diferentemente do que aconteceu com Bernard, ela havia sido condicionada perfeitamente e estranhava o comportamento do parceiro, que fazia perguntas incompreensíveis:

- Você não tem o desejo de ser livre, Lenina? 
- Não sei o que você quer dizer. Eu sou livre. Livre para me divertir da melhor maneira possível. Todos são felizes agora.
Ele riu.

Quando Bernard começava com suas reflexões, Lenina ansiava por uma grama de soma. Como disse no início, a felicidade poderia ser adquirida em pequenas cápsulas. Este medicamento era a fuga da realidade. Ao ingeri-lo, a pessoa sentia um bem-estar e era como se estivesse em outro mundo: o mundo quente, cheio de cores vivas, o mundo infinitamente acolhedor criado pelo soma. (p.129)

Em um de seus passeios, Bernard desejou ir à Reserva do Novo México para conhecer os selvagens. Depois de concedida a autorização, ele e Lenina foram até o lugar onde as crianças ainda nascem, existem mães e pais, as pessoas envelhecem e há hábitos repugnantes como o casamento, cultos, doenças, religião... um horror!

É na Reserva que os dois conhecem Linda e John. Linda é uma Beta que foi parar na Reserva. O distanciamento da civilização transformou-a em uma selvagem em sua aparência, mas suas recordações e costumes ainda são condicionados. Ali, sem os medicamentos, ela deu a luz ao seu único filho, John. Este jovem rapaz sonha com a civilização, de tanto ouvir as estórias maravilhosas de Linda. 

Animado com sua descoberta, Bernard faz um convite aos dois moradores da Reserva: ir com eles para Londres. A partir deste momento, todas as ambições de Bernard são apresentadas, mostrando quem ele verdadeiramente é, e John descobre que o admirável mundo novo, aquele que tanto sonhara conhecer, não tem nada de admirável. 

Uma distopia de tirar o fôlego. É impressionante pensar tudo o que Huxley imaginou na década de trinta do século passado - e como tantas ideias dialogam com o nosso presente. Leitura imprescindível.

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