domingo, 20 de outubro de 2019

Eu e o Carlos escrevemos um texto. Ei-lo:

A gente acredita que tudo é muito. Mas “tudo” não é pronome indefinido por acaso. Quando digo “tudo”, digo “nada” também – porque preencher o espaço é também encontrá-lo vazio. Não confio mais em pronomes indefinidos. Quando você diz que me ama muito, eu não sei distanciá-lo do pouco. Eu preciso de medidas mais exatas. Quero que o sentimento pouse nas minhas mãos, como um passarinho, para saber quanto pesa. Antes eu me convencia pelas palavras. Agora preciso de mais. Sou uma incrédula lexical. Não me venha com os teus adjetivos. Não quero saber dos teus verbos. Por muito tempo fui leitora. Li os amores de Camões. Me apaixonei. Li as liras de Dirceu para Marília. Queria ser Marília. Li todos os românticos loucos de amor e me embriaguei em suas loucuras. Li Bilac e seus amores naquela matemática construção de um poema parnasiano. Li Augusto dos Anjos e comecei a perceber que o "amor da humanidade é uma mentira". Li Bandeira, li Vinícius, li Cecília, leio Clarice, leio Chico Buarque, leio, leio e leio. E pensei que, por ler tanto, sentiria o amor do jeito que lia e interpretava. Mas, não! Esse e outros sentimentos me parecem muito vagos hoje. Quanto vale um “eu te amo”? Às vezes, acho que vale a mesma coisa de um “bom dia”. Pelo menos, o dia tem vinte e quatro horas. Mas, e o amor? Fui aos livros de matemática. Deve haver uma fórmula de calcular determinadas palavras ou alguma teoria das ciências exatas que mostrem o porquê de um tudo poder ser usado como um nada. "Eu te amo muito, mas..." foi uma frase que escutei na minha vida. Como pode muito e mas conviverem pacificamente numa frase como essa? A intensidade de uma vai de encontro a hesitação da outra. A colisão é o que fica em mim. Que valor cada uma tem? A gente acredita que “muito” quer dizer “tudo”, que é o suficiente. Aí vem o “mas” e mostra que a ciência das palavras não é exata. Continuarei uma incrédula lexical, querendo calcular o valor dos pronomes, dos adjetivos e dos verbos como se pegasse uma flor, um passarinho, uma pedra ou um espinho. Afinal, prefiro calcular a verdade da palavra a me machucar com os seus sentidos não exatos.

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