sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Aniversário de terapia

Há um ano faço terapia. Gostaria de ter começado por motivos mais nobres, não vou negar. Comecei fazendo todas as perguntas erradas, ansiosa por respostas que nunca recebia. A cada sessão me sentia mais angustiada. O buraco no estômago dificultava a digestão, como se eu já não tivesse problemas demais. O que estava procurando ali? Estava armada. Detestava olhar aqueles lencinhos e, pior, puxar um por um cada vez que as lágrimas caíam. Uma vez, cansei dos bons modos e puxei logo três. Enquanto ela falava, elaborando perguntas, me fazendo revisitar o passado, eu fazia bolinhas com os lenços usados. Bolinhas úmidas que arremessei no cesto antes de entrar no elevador. Por que estou falando disso?

Não fui sincera desde o início, não. Meu coração estava todo desalinhado, pra não dizer torto. Estava atravessado. Perdi todas as fronteiras, não sabia onde ou quando. O tempo era condição do entendimento, mas eu tinha pressa. Quem já viveu o luto quer passar logo por ele, não vê a hora de enxergar tudo mais ou menos acinzentado e, por fim, as cores. As cores...

Cada mês que passava, trazia mais desse entedimento que eu buscava. Comecei a fazer as perguntas certas e caminhei em direção às respostas. Encontrei muitas que me foram satisfatórias, outras que tive vontade de descartar, como aquelas bolinhas úmidas que arremessei nas primeiras sessões. Aprendi, no entanto, a ser paciente. Não sei se convenço, mas falo sério. 

Eu juro que pensei em comemorar essa data com um bolinho, com vela e tudo. Eu assopraria a vela e faria um pedido. Na semana seguinte, eu contaria para a psicanlista. No entanto, guardei a ideia do bolo para depois e me levei para jantar. Estava em Nova Iorque, realizando o sonho da adolescente que fui um dia. As lembranças das calças listradas que eu amava usar, das camisetas de bandas, dos olhos contornados com lápis preto, me levaram até o Hard Rock Cafe. Times Square. 

Escolhi um hambúrguer tradicional com batata frita. Até parece que sabiam da comemoração, pois recebi uma batata extra. Não faço a mínima ideia de quem me deu, diga-se de passagem. Acho que estava tão eufórica com o ambiente, a música, que não passou pela minha cabeça perguntar o remetente. 

Ali, sozinha, em outro país, falando o mínimo possível porque não tinha com quem conversar, senti-me inteira. Entendi o que a terapia havia feito por mim no decorrer desses doze meses. E todas as respostas não me interessavam mais - porque ali, na minha solitude, eu compartilhei um momento com a minha própria existência. Cruzei os braços, pousando as mãos sobre os meus ombros, abaixei a cabeça e fechei os olhos: abracei o meu lugar no mundo. 

Um comentário:

  1. Querida, Ana!

    Engraçado como eu me vi neste texto. Não fiz aniversário de terapia ainda, na verdade, há apenas alguns meses que vou ao psicólogo. Estou perdida, confusa, parece que estou tentando me encontrar há 6 anos. São 6 anos, mas parecem 100. Todos os dias, me pergunto se vou ser feliz no curso que escolhi (Letras), se serei uma boa professora ou se saberei todas as normas gramaticais. Está difícil, parece que o dia em que ficarei 100% bem nunca chegará, mas não perco a fé!

    Enfim, obrigada por ser a Ana Polo: a minha maior inspiração desde 2015 ♡

    Toda a felicidade do mundo para você!
    Abraços,
    Lídia.

    ResponderExcluir