domingo, 14 de abril de 2019

O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago


O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, narra a história de um homem que, certo dia, vai até o rei pedir um barco. O pedido deixou a todos surpresos, principalmente a mulher da limpeza, responsável por abrir a porta das petições para saber o que as pessoas queriam.

Três dias depois do pedido, o rei vai até o homem.
Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. (Página 15).
O barco, então, seria para ir à procura da ilha desconhecida. Nosso protagonista refuta a ideia de que nos mapas estão todas as ilhas conhecidas. Após tanta demora para o rei decidir se daria o barco ou não, as pessoas que ali estavam à porta das petições esperando para serem atendidas, em coro, começaram a gritar “dá-lhe o barco, dá-lhe o barco”, pedido este que o rei não pode mais negar.

A mulher da limpeza, que a tudo assistia, saiu logo depois do misterioso homem, usando a porta das decisões. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira. (Página 24)

Após a entrega do barco e a chegada da mulher da limpeza, o homem vai atrás de uma tripulação. No entanto, volta sem ninguém, pois mais uma vez as pessoas afirmam que todas as ilhas já são conhecidas. Quando conversa com a mulher, temos um dos diálogos mais bonitos de todo o conto:
(...) mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o saber, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha o que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa.
Na primeira noite, o homem teve um sonho. Sonhou que tinha a sua tripulação e que eles levavam sementes, animais, entre outras coisas. Na última hora, a mulher da limpeza não quis mais acompanha-lo em sua busca pela ilha desconhecida. Ainda assim, os olhos dele continuaram a procura-la em todo o lugar...

Ainda no sonho, num dado momento, a tripulação encontra uma ilha conhecida e todos pedem para desembarcar. Eles levam tudo para a ilha, os patos, os coelhos, as galinhas, os bois... e o homem abandonado continua no barco. No entanto, quando ele precisou descer da embarcação, viu uma sombra ao lado de sua sombra.

Ao acordar, tinha em seus braços a mulher da limpeza. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, a Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.


Como diria Fernando Pessoa, "para viajar, basta existir"O Conto da Ilha Desconhecida é uma viagem pelo nosso mundo, a ilha que existe em cada um de nós.

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