domingo, 24 de março de 2019

Texto do ano passado das coisas passadas

Eu era sua fã
Você subia os degraus do pedestal sozinho
Mas eu te ajudava
Mostrava o caminho
Queria te ver perto do sol
Teu rosto iluminado pelo dia que era seu também
Você mandava chover, chovia
Eu era rio
Você mandava a tempestade, o vento cortava a minha pele
Eu era silêncio, mas estava sorrindo
O que mais eu poderia querer?
Tinha teu nome ao lado do meu
Tinha teus pés sobre o meu colo
Tinha a liberdade de não ser
Eu admirava teus passos
Teus sapatos
Tuas manchas de pele
Teu caminhar manco
Eu admirava o que entendia que era teu
Mas olhe só, eu era tua e não me gostava
Não me sobrava tempo no teu relógio
Teu tempo era outro
Meu tempo era o mesmo
Mas fiz questão de acertar os ponteiros
Até que o tempo foi todo teu
Meu caminhar se acostumou com a tua sombra
E no frio, com as tuas mãos macias
Um dia você me deixou na esquina
Da rua que eu conhecia
Da casa que era minha
Dos carros que me atravessavam
Não soube voltar sozinha
Mas você já tinha ido embora
Então eu andei sem tua sombra
Então eu andei sem tua mão macia
Parei quando encontrei um lugar desconhecido
Olhei em volta e vi minhas roupas
Meu cigarro
Meus cadernos todos de amores
Meu chinelo velho, meu armário envelhecido
Vi o tempo que me pertencia
Convidando-me para o aconchego de minhas horas roubadas
Meu tempo.
Tinha também um espelho
Olhei minhas unhas e não gostei da cor
Encarei meu cabelo e não reconheci o corte
A roupa não era minha
Aquela mulher não era eu
Era uma menina
Com os olhos cheios de lágrimas e desventuras
Com a pele marcada do tempo que havia passado
Teu tempo.
Meu tempo é outro
Teu tempo é passageiro
É raso, é raro
É marcado pelos segundos
Não, pelos milésimos de segundos
Meu tempo vem das horas
Conheci a vida assim
Vivendo de tempo infinito
Amando infinito
Sonhando infinito
Morrendo infinito
Teu tempo só sabe durar pouco
Eu vejo a passagem do tempo nas rugas do teu rosto
E vejo em minha pele o que teu tempo deixou.

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