terça-feira, 12 de março de 2019

O conto da Aia, de Margaret Atwood

“Tenho trinta e três anos. Tenho cabelos castanhos. Tenho um metro e setenta de altura descalça. Tenho dificuldade de me lembrar da aparência que eu costumava ter. Tenho ovários viáveis. Tenho mais uma chance.” (Página 173). 

Offred, nossa narradora, é uma aia. Na República de Gilead, isso significa algumas coisas. Significa, por exemplo, que ela é um pertence da casa do Comandante e de sua Esposa. Significa também que ela tem um único objetivo: procriar. 

“Somos para fins de procriação: não somos concubinas, garotas gueixas, cortesãs. (...) Somos úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes.” (Página 165)

Assim como as outras aias, Offred faz parte da casta responsável por gerar filhos dentro dessa realidade distópica. Devido a centenas de anos de poluição, o ar começou a ficar carregado com substâncias químicas tóxicas – o que causou a morte de muitas pessoas e a impossibilidade de algumas mulheres em gerar filhos. Sendo assim, as aias estão incumbidas de uma grande responsabilidade. 

E de uma grande opressão. 

Nesta sociedade, não existem mais revistas, livros, filmes; as placas com letreiros foram substituídas por imagens, já que a população não é mais alfabetizada; e aqueles que desobedecem às regras são fuzilados e expostos em praça pública, para servirem de lição aos rebeldes.

No entanto, Offred ainda se lembra de seu passado, um passado não muito distante, onde era casada, tinha uma filha, um emprego e até mesmo outro nome – o seu nome. Sua história nos é contada porque ela mantém a esperança de um dia saber onde está sua família. Mas em um lugar onde seus passos são constantemente vigiados, ela precisa tomar cuidado.

“Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a para alguém. Você não conta uma história apenas para si mesma. Sempre existe alguma outra pessoa.” (Página 52)

Confesso que fiz algumas pausas durante a leitura para assimilar aquelas duras linhas. Ainda assim, com socos no estômago, com situações análogas a nossa atual conjuntura, acredito que “O conto da Aia”, com toda a sua visceralidade, seja uma obra que precisa ser lida por todos nós. As distopias, afinal, não se distanciam muito de seu contexto de produção.

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