domingo, 3 de fevereiro de 2019

Persépolis, de Marjane Satrapi


Em 1979, Marjane, uma menina de 10 anos, vê sua vida mudar radicalmente com a revolução do regime xiita no Irã. Antes, a protagonista estudava em uma escola francesa e laica, considerada pelos novos líderes um símbolo do capitalismo mundial e da decadência. A partir desse momento, ela é obrigada a usar véu na escola e meninos e meninas são separados. 

O livro narra sua trajetória - da infância até o início da vida adulta - e todas as consequências de um regime opressor nas vidas dos cidadãos iranianos. Violência, perdas, drogas, abandono, mártires... todas essas questões compõem o universo de Marjane. As trevas lançadas em seu país obrigaram seus pais a tomarem uma difícil decisão. Em 1984, a jovem Satrapi vai morar na Europa.

A gente te ama tanto que quer que você vá embora. Preferimos você longe de nós e feliz do que perto e infeliz. Do jeito que as coisas andam, você ficará melhor lá do que aqui. 

Distante de sua família e de sua religião, Marjane se depara com outras realidades e com pessoas que nunca se aproximaram tanto de um ambiente de guerra como ela. Isso desperta o interesse de outros jovens pelas suas histórias. Contudo, ainda que tenha feito amizades, Marjane sente um vazio dentro de si.

Quanto mais esforços de integração eu fazia, mais tinha a impressão de me distanciar da minha cultura, de trair meus pais e minhas origens, de jogar um jogo que não era meu. Cada telefonema dos meus pais me lembrava a minha covardia e a minha traição. Eu estava ao mesmo tempo feliz em ouvi-los e incomoada em falar com eles. Se eles soubessem... se apenas soubessem que enquanto eles eram bombardeados diariamente a filha deles se maquiava como uma punk, fumava baseados para causar boa impressão, tinha visto homens de cueca, não diriam mais que eu era a filha dos seus sonhos. Eu me sentia tão culpada que mudava de canal assim que davam notícias sobre o Irã. Era insuportável demais.

Com maestria, Marjane emociona a todos os leitores. Seu relato autobiográfico em quadrinhos torna a leitura mais leve, ainda que tenha como pano de fundo a violência e a morte, tão presentes em qualquer regime autoritário. É difícil não se emocionar com algumas passagens, principalmente aquelas em que a protagonista repensa o rumo de sua vida. 

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