terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Não estamos vendo

Eu gostaria de ser mais corajosa para lhe dizer que esse vazio que habita em você até que é bonito. Esse ar melancólico combina com o concreto da cidade, com esse piercing pendurado no nariz. Mas não se trata apenas de ornar as coisas, não. É que alguém antes da gente inventou essa história de “tampa da panela”, “metade da laranja” e até hoje ninguém desdisse essas baboseiras. É por isso que compreendo a sua busca - e sua vontade quase palpável de se conectar a alguém. Queria eu me sentir assim de vez em quando - de vez em nunca. Deve ser louco mesmo. Estar com alguém e não se imaginar em outros lugares, com outras pessoas, aproveitando seu tempo de outra forma. Eu só consigo imaginar. Mas como venho tentando te dizer - esse vazio também pode ser liberdade. Pode ser, porque você quem decide o que vai fazer aí. Pode entulhar de flores, músicas, beijos e nomes... mas é bom se preparar para as pétalas espalhadas, murchas pelo chão; os acordes maçantes, repetidos à exaustão; os beijos sem nomes; os nomes sem definição... não digo isso para te desanimar, digo porque de permanente na vida, só a impermanência. Deixa esse vazio aí, então. É bom ter um cantinho seu. Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo - escreveu uma vez Guimarães Rosa. Guardadas as devidas proporções, acho que estamos deixando algo escapar. Anda, vem comigo. Vamos no samb, ver gente. Vamos compartilhar esse silêncio bom, nosso. Há tanto para se conhecer em sua recente liberdade. 

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