sábado, 9 de fevereiro de 2019

Carcereiros, de Drauzio Varella


O segundo livro da trilogia sobre o sistema carcerário explora a realidade dos homens que mantinham o funcionamento do maior presídio da América Latina, revelando-nos seus dramas e desafios. Durante os vinte anos em que trabalhou como médico voluntário, Drauzio conheceu diversos agentes penitenciários - e tornou-se amigo de muitos deles.

Drauzio compartilha conosco histórias reais, de profissionais que acertam e erram, que levam uma vida simples, que precisam a todo o tempo tomar decisões importantes em um contexto muitas vezes esquecido pela sociedade. Por outro lado, o autor, de forma muito sutil, mas certeira, exprime sua opinião crítica a respeito dos problemas dos presídios, principalmente no capítulo “Fábrica de ladrões”, em que a crise penitenciária, com ênfase na superlotação dos presídios é discutida - e maneiras de combatê-la são apresentadas.

Mais uma vez, Drauzio retoma o massacre e a implosão do Carandiru, que foram citados inicialmente no primeiro livro da trilogia, especialmente em relação à invisibilidade do presídio até o primeiro acontecimento.

Até a morte dos 111, a Detenção só havia aparecido nos noticiários de rádio e tv e nas primeiras páginas dos jornais por ocasião da tentativa de fuga à mão armada que ocorreu em 1982. (...)
É inacreditável que um presídio daquelas dimensões tenha permanecido em anonimato silencioso por quase meio século (...).
 A única explicação para esse fenômeno está na invisibilidade social reservada aos excluídos.
 Todos os dias chegavam detidos e saíam em liberdade dezenas de homens, muitos dos quais responsáveis pelos sequestros, assaltos e homicídios que Rubem a tranquilidade das ruas. Como essa “escória social” tem suas origens na periferia da cidade, bairros e vilas por onde um bem-nascido jamais se aventura, seus membros enfrentam preconceito duplo: o primeiro por viver fora da lei, o segundo por ser pobre. Se tiverem pele escura, então, a discriminação será tripla. (Página 194).

A dimensão humana ganha espaço em sua obra; o desprezo pela vida dos outros é apontado, assim como nossa insistência em fingir que esses homens e mulheres cerceados de sua liberdade não existem. Quando comecei a ler essa trilogia, por curiosidade, não imaginei que fosse me sensibilizar tanto com as histórias que preenchem as páginas dos livros 1 e 2. Já reservei o terceiro livro na biblioteca do colégio. Tenho a certeza de que será a leitura mais difícil, pois trata-se da experiência do doutor Drauzio como médico voluntário em presídios femininos. 

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