quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Menino do Rio

Não vou mentir, cara. Eu me assustei quando você se aproximou da minha mesa e se curvou para aproveitar a sombra do meu guarda-sol. A princípio, imaginei que você fosse mais um ambulante, vendendo amendoim ou queijo coalho. Em questões de segundos, percebi que você não carregava nada e, mais uma vez, fiquei ligeiramente preocupada. Que porra é essa?
- E aí, tudo bem? Eu vi que você tava fumando... me empresta o seu isqueiro?
- Pô, cara! Pega aí.
- Valeu.
Claro, só podia ser isso. Levou alguns minutos para o meu coração desacelerar, mas logo estava aproveitando a praia de novo. Essa foi a primeira vez que saí sozinha em uma viagem desde Vancouver e estava empolgada demais. Fiz amizade com as donas de um quiosque, comprei umas cervejas e relaxei... nos fones, uma música do Caê, meu companheiro de sempre. Alexandrino. Por essa eu não esperava, Caetano. Só você para citar Olavo Bilac em um funk. O vento fazia o meu cabelo balançar... a areia não me incomodou e o mar... ah, o mar...
- Dá licença? Desculpa te incomodar de novo, mas me empresta seu isqueiro?? Ah, e meu amigo gostou de você, será que você não quer ir lá conhecê-lo?
A tranquilidade me abandonou e deu lugar à confusão. Foi tão rápido – de novo -, que nem dei uma conferida no amigo dele antes de negar e agradecer a oferta. O cara do isqueiro era tão gente boa que sorriu, me cumprimentou como nós costumamos fazer em São Paulo (um gesto com as mãos que não dá tempo de explicar agora), acendeu o cigarro e foi embora.
Eu fiquei tão estarrecida que fui embora um pouco depois do ocorrido. Não sei explicar exatamente o que me incomodou, mas tenho lá as minhas suspeitas. Primeiro, achei estranho o cara ter se interessado por mim – não porque eu não sou uma mulher interessante, mas porque eu estava tão relaxada que devo ter coçado o umbigo algumas vezes. Em nenhum momento percebi qualquer olhar, talvez por estar tão concentrada em mim. Será que serei julgada por isso algum dia? Afinal, eu nem vi o cara. Não sei como ele é. Não sei descrevê-lo porque não quis buscá-lo em meio às mesas. 
Menino do Rio, quero voltar no tempo para saber quem é você. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário