terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Leitorxs

Descobri que sou lida por quem eu não gostaria que me lesse. A descoberta me deixou brevemente desnorteada, mas depois de uma caminhada, consegui relacionar um dos aprendizados da terapia na prática: não tenho controle sobre nada e, especialmente, sobre ninguém.


Quem me dera poder criar uma lista de leitorxs indesejáveis. Eu evitaria, assim, uma preocupação desnecessária que sinto em medir minhas palavras. Eu escrevo mais nas entrelinhas do que gostaria, muitas vezes, por pensar nessxs interlocutorxs que me incomodarão depois, exigindo explicações sobre cada vírgula que usei e cada reticência que não diz...

No entanto, o acesso é liberado. Basta lembrar meu nome e sobrenome e... cá estou eu, escrevendo para saber que tenho bordas, como diria Bernardi. A leitura só não me incomoda mais do que a análise feita por esse grupo vip. Alguns me leem apenas na superfície, enquanto outros acreditam que me conhecem nas entrelinhas. Ambos, caminhando em direções opostas, causam o mesmo efeito sobre mim: desânimo. Perco a vontade de escrever; e jogo para debaixo do tapete as partículas de poeira que tirei dos cantos das minhas histórias.

Agora, o que estou tentando praticar é o distanciamento do olhar dx outrx. Esse olhar me questiona; me julga e me ameaça. Fico com o não-dito tantas vezes que hoje já o compreendo bem. Caminho silenciosa ao lado dele.

Por dentro, contudo, lido com uma ariana que quer gritar e cuspir cada palavra, sílaba por sílaba e com bastante ênfase nas tônicas. Quero vomitar até passar o incômodo. O que escolho, porém, é dormir com o estômago embrulhado.

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