sábado, 24 de novembro de 2018

A noite da espera, de Milton Hatoum


No final da década de 60, os pais de Martim, um jovem de 16 anos, se separam. O motivo: a mãe, Lina, se apaixonara por um artista e decidira viver com ele. Um tempo depois da descoberta, Lina anuncia que Martim irá morar com o pai, Rodolfo, em Brasília. A partir de então, temos a narrativa de um jovem que, em plena ditadura militar, vivencia a repressão exercida pelo governo autoritário e a terrível angústia que sente causada pela ausência da mãe.

Vivemos sob o mesmo teto, mais longe um do outro. Aceitamos isso, talvez por sabermos que já estamos separados, como dois prisioneiros em celas vizinhas. (MILTON, 2017, p. 67)

Em Brasília, o distanciamento com o pai torna-se ainda mais latente. Rodolfo, engenheiro da Novacap, amante do regime militar, não consegue - e nem mesmo se esforça para estabelecer uma relação com Martim. Este, fica cada vez mais próximo dos outros estudantes da UnB, compondo um grupo de teatro e participando da produção da revista Tribo.

Sugeri que a Tribo devia publicar poemas, fotos, quadrinhos, artigos e traduções. Uma revista de arte, sem editor nem diretor de redação. (MILTON, 2017, p. 73)

Ao lado de seus novos amigos, Nortista, Ângela, Fabius, Dinah e Vana, Martim descobrirá o teatro, a poesia, o sexo, o amor e também a censura, ao tentarem encenar uma peça teatral e o medo, imposto, principalmente, pela repressão do regime e pelas prisões políticas.

O texto de Prometeu foi liberado com alterações e cortes. A censura excluiu cinquenta e duas frases e substituiu váras palavras: "inferno" por "mundo subterrâneo e abrasivo"; "Brasília" por "Cidade Invernal"; "os Três Poderes" por "as Três Instituições" (...). (MILTON, 2017, p. 116-117)

De 1968 a 1972, Martim escreve e descreve o seu cotidiano em Brasília, marcado, principalmente, pela difícil relação com o pai, o estranho silêncio da mãe, que apesar de se comunicar por cartas, nunca diz onde está, e suas atividades políticas com a galera da Tribo. Tais escritos são relidos pelo protagonista, que no ano de 1978, em Paris, busca organizar esse material, reconstituindo, assim, uma parte de sua própria narrativa.

Tirei da sacola a papelada de Brasília e São Paulo: cadernos, fotografias, cadernetas, folhas soltas, guardanapos com frases rabiscadas, cartas e diários de amigos, quase todos distantes; alguns perdidos, talvez para sempre. Comecei a datilografar os manuscritos: anotações intermitentes, escritas aos solavancos: palabras ébrias num tempo salteado.  (MILTON, 2017, p. 16-17)

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