domingo, 28 de outubro de 2018

Vá, coloque um vigia, de Harper Lee


Preciso confessar a felicidade que senti ao me deparar com Vá, coloque um vigia, de Harper Lee na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Já faz algum tempo que li O sol é para todos e eu sabia que havia uma continuação.  Então, assim que vi um dos exemplares dessa sequência, eu o peguei e o coloquei perto do peito, como se estivesse abraçando alguém muito querido. Por mais que me interessasse por outros títulos, sabia que levaria aquele comigo.

Comecei a leitura no mesmo dia. Jean Louise (ou Scout), a protagonista de O sol é para todos, está com 26 anos de idade, mora em Nova York e ocasionalmente, volta para Maycomb, no Alabama, para visitar o pai, Atticus Finch, sua tia Alexandra e o amigo de longa data, Henry. A viagem, que costuma ser agradável, torna-se árdua quando Jean Louise descobre verdades sobre sua família. Estamos na década de 50 do século passado.

A partir de uma reunião no tribunal da cidade, Scout percebe que seu pai, a pessoa que mais admirava em toda vida, é um homem conservador, racista – que assiste a reuniões da Ku Klux Klan e se opõe à igualdade racial promovida pela Suprema Corte norte-americana. Vale ressaltar que quando Jean Louise tinha 8 anos, na década de 30, seu pai defendeu um homem negro acusado de estupro, portanto, em O sol é para todos, temos a percepção de que Atticus é contra a discriminação, uma vez que não o diferencia de outros clientes brancos.

A realidade causa angústia à protagonista, que se sente enganada pelo pai:

“O único ser humano no qual ela confiava completamente, com toda a sua alma, a decepcionara. O único homem para o qual podia apontar e dizer, com certeza absoluta, ‘É um cavalheiro. É um cavalheiro de educação’, a tinha traído pública, completa e descaradamente.” (Página 105).

No decorrer da narrativa, Scout tem alguns flashbacks de sua infância e adolescência que hoje, são percebidos a partir de outro olhar – o de uma mulher de 26 anos que, em sua meninice, “era incapaz de distinguir as cores” (página 113). Uma das cenas mais intensas do livro é quando ela encontra Calpúrnia, a mulher negra que cuidou dela e de seu irmão quando eram crianças – uma das personagens mais interessantes de O Sol é para todos. Após 20 anos, Jean Louise vai visita-la e Calpúrnia a trata como costumava tratar as visitas que Atticus, seu patrão, recebia em casa – com muita formalidade.

“Jean Louise ficou olhando boquiaberta a velha mulher. Estava sentada com a altiva dignidade que assumia em ocasiões formais, que vinha acompanhada por uma gramática descuidada. Se o mundo tivesse parado de girar, as árvores tivessem congelado e o mar tivesse devolvido seus mortos, Jean Louise não teria notado.” (Página 146).

Cal não enxerga mais a menina que cuidou como uma filha há 20 anos. O que ela vê na sua frente é uma mulher branca, apenas.

“- Cal – disse chorando. – Cal, Cal, Cal, o que está fazendo comigo? O que houve? Sou sua menina, lembra? Por que está me ignorando? Por que faz assim comigo?” (Página 147).

Uma narrativa intensa, emocionante e de muitas descobertas. Certamente, quem já leu o primeiro livro vai se angustiar e sofrer, assim como a protagonista, ao perceber quais são as verdadeiras relações entre as personagens e seus posicionamentos políticos, especialmente o de Atticus. Contudo, ainda que haja uma decepção, é importante nos lembrarmos de que o pai de Jean Louise era um homem de seu tempo e, infelizmente, o racismo era defendido cientificamente naquela época.

Por outro lado, há uma esperança quando olhamos para Scout, que apesar de estar inserida neste contexto, tem a percepção de que a segregação racial e o preconceito, tão presentes no Sul dos Estados Unidos no período em questão, são ideias desprezíveis, absurdas, irracionais. Para ela, os negros devem ter os mesmos direitos que os brancos, algo que seu pai não acredita – e algo que a fará perder toda a admiração por ele.

“O vigia de cada um é a sua própria consciência.” (Página 239).

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