terça-feira, 2 de outubro de 2018

Narrativas

Há pouco mais de dois anos, escrevi um texto sobre as batalhas que merecem ser enfrentadas. Lembro-me desse dia como se fosse ontem – apesar de sentir um alívio por não ser mais tão recente assim. Nesse texto, publicado aqui, eu narro a primeira vez em que me senti egoísta – e as decisões que tomei após perceber tal desvio. Era uma tarde de domingo em família; minha mãe e minha avó conversavam sobre a morte do meu tio Nenê. Aos prantos, ambas tentavam reconstruir o quebra-cabeça que representava aquela noite fatídica. No mesmo período em que essa tristeza assolou nossa família, eu e o Lu havíamos terminado o nosso namoro. Nós dois – e eu só soube disso depois – estávamos mal por esse desfecho, ainda que lá no fundo, soubéssemos que não havia outra possibilidade no horizonte. Aqueles primeiros meses de 2016 não foram fáceis. Tivemos algumas idas e vindas, como é de costume entre casais que terminam amando um ao outro. No fim, nossa separação se mostrou a alternativa mais razoável para dois jovens adultos que precisavam descobrir a vida e se aventurar por aí. Após alguns meses, me apaixonei por um amigo, o que foi, para mim, uma insanidade. Eu neguei esse sentimento até as últimas consequências: a ruptura total de nosso vínculo. Foi uma decisão difícil – e eu jamais esquecerei daquela cena: depois do anúncio, caminhamos por mais alguns metros dentro do shopping, até eu conseguir tirar forças para abraça-lo uma última vez e ir embora. Até hoje não sei como consegui não olhar para trás. Até hoje não sei como consegui conter a vontade de dizer que o amava e roubar-lhe um beijo. Mais alguns meses se passaram e eu me apaixonei de novo. Dessa vez, não consegui manter o distanciamento que considerava seguro – e contrariando as minhas decisões logo após o término com o Lu, as histórias que ouvi aqui e ali sobre o famoso personagem da literatura espanhola, arquétipo de tantas ciladas, lancei-me em um relacionamento como um amante de bungee jump se lança de um penhasco – tendo como única proteção um elástico amarrado nos pés. O salto causou adrenalina, sensação esperada por quem se arrisca a tais aventuras. No entanto, o elástico esticou mais do que o devido até se romper definitivamente e o choque com o chão foi inevitável. Caí, tomando o cuidado para não machucar o meu rosto, mas sem conter as lágrimas que ao chegarem à boca, quase tomaram vida e voz para me dizer, “nós bem que tentamos te avisar”. Engoli em seco ao perceber que ninguém tinha me empurrado – eu saltei porque quis e não me preocupei com a minha queda. Olho para cima, depois de bater toda a poeira do corpo – vejo uma pessoa pronta para saltar. Penso em alertá-la, mas em uma situação de completa euforia, quem é que aceitaria um conselho ponderado? Hoje decidi voltar àquele texto, porque ele encerra um ciclo e inicia outro. Daquele dia até esse instante, vivi outras eras, algumas mais felizes do que outras, mas todas com o tempo bem definido. E, dessas narrativas, aprendi muito sobre mim. Ora fui egoísta, ora fui desprendida. Aqui fui feita de tola, lá fui contemplada com cartas de despedida, referência de um carinho indubitavelmente presente até o fim. Seja como for, esse texto era para ser sobre as batalhas que merecem ser enfrentadas, mas ao invés de defini-las, o que fiz foi criar uma linha do tempo de todas as vezes em que estive na linha de frente, recebendo o chumbo direto no peito, resistindo metaforicamente a todos os infortúnios que ocasionalmente atravessam nossas jornadas. 

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