sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Ela

As vezes, gosto de me observar de longe, como se eu fosse aquela desconhecida que chama atenção na rua pelo jeito engraçado de andar, pelas roupas extravagantes ou pela confiança excessiva. Na minha cabeça, crio todo um cenário: lá estou eu, na Avenida Paulista, caminhando em direção à Estação Trianon-MASP. Estou usando meu casaco preto – o último que comprei para usar naquele fiasco de viagem. Meu cabelo está no tom de ruivo que eu queria desde o dia em que inventei de pintar. Carrego duas bolsas, como é de costume entre professoras de redação. Uma bolsa contém meus documentos, um guarda-chuva metalinguístico e uma necessaire com batom, corretivo e absorvente. Na outra, há livros, redações não corrigidas e um caderno da faculdade. Enquanto uma mão está no bolso, checando constantemente se o celular ainda está ali, a outra segura um expresso da Starbucks. Caminho com alguma pressa, daquele jeito que só paulista sabe caminhar – passos curtos e os braços bem rentes ao corpo, para evitar qualquer esbarrão. Em direção ao metrô, são muitos os pensamentos que vem e vão. Dou uma atenção considerável a cada um deles. Alguns são mais interessantes do que outros. Alguns me levam a lugares distantes, outros me lembram de fincar meus pés no chão. Entre uns e outros, sigo em frente. Ouço um samba que me faz balançar a cabeça de um lado para o outro – e não me importo com os olhares de reprovação. Mais alguns pensamentos surgem e eu lhes dou a devida atenção. Relembro textos que foram publicados no meu blog há alguns anos. Pego o celular e digito, anapoloblog. A sensação é que estou lendo uma outra pessoa, especialmente quando releio os textos mais antigos, aqueles que falam sobre fortalezas e promessas de um futuro singular. Por mais que eu não me reconheça, os textos trazem consigo uma memória emotiva muito forte. Lembro-me, então, de como eu estava certa, aos 22, de que seria incapaz de amar de novo ou do quão flor me sentia e das incontáveis vezes em que usei essa metáfora para falar sobre mim. Sou flor. Naquele tempo, eu tinha acabado de murchar. Senti as pétalas caindo, uma por uma, até que não havia nenhum resquício dos dias em que tinha sido beijada pelo sol. Levei um tempo para enraizar de novo e crescer. Quando dei por mim, já estava florescendo de novo. Ao olhar para trás, tenho vontade de sorrir, mas me controlo, porque no transporte público, quanto menos você chamar a atenção, melhor. Mas essas lembranças, de alguma forma, me acalentam. Afinal, quando você é capaz de olhar para o passado sem sentir nenhuma dor, significa que você finalmente apreendeu o que precisava para evoluir. Alguém esbarra em mim e volto a me concentrar no presente. Estou indo para a faculdade, assistir aquela aula que parece nunca ter fim. Será que meus alunos pensam isso sobre as minhas aulas? Volto a me distrair com as lembranças do tempo em que era flor. Promessas são tão ridículas - assim como cartas de amor, concordando com meu amado Fernando Pessoa. Aliás, não guardei nenhuma - nem cartas, nem promessas. Por que é que nos sujeitamos a acreditar nelas? Talvez seja para acreditar em alguma coisa. Bom, eu acreditei, por algum tempo, que não me apaixonaria de novo. Depois de alguns meses e alguns textos, lá estava eu de novo, naquele mesmo lugar, estreito, porém estranhamente confortável até o início do fim... Mas esse é um assunto para outro momento. Continuo me observando como se não morasse nessa casa que chamam de corpo.

2 comentários: