quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Leitura: Minha Vida de Menina, de Helena Morley


Minha vida de menina é o diário de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, uma adolescente de Diamantina que viveu no final do século dezenove. Durante três anos, incentivada pelo pai, Helena compartilha o seu cotidiano e transforma o seu diário numa espécie de melhor amigo.

Iniciando em 1893, somos apresentados a uma sociedade fundada nos valores e preceitos da monarquia e do catolicismo. A avó de Helena, Sinhá Teodora, é uma ex-dona de escravos, mas que ainda conta com o trabalho destes homens e mulheres que não têm para onde ir e ficam em sua fazenda. O pai de Helena vive na busca incessante de encontrar diamantes e a mãe, é uma dona de casa que vive para o marido e os filhos.

Helena frequenta a Escola Normal e é uma aluna “vadia”, como ela mesma e os professores costumam dizer, já que não estuda tanto quanto deveria e sempre dá um jeito de colar nas provas. Sua rotina sofre poucas oscilações ao longo dos anos: da escola para a casa da avó ou de amigos e familiares. São todos muito devotos aos santos da igreja católica, especialmente a mãe, ainda que o pai, descendente de ingleses, contribua com uma formação protestante e liberal. Levam uma vida simples, mas muito bem vivida. Em um dia semana, Helena e Luisinha, sua irmã mais nova, ajudam a mãe com os afazeres domésticos.

Minha Vida de Menina é um relato biográfico, social e histórico. Durante a leitura, nos deparamos com o racismo, como o dia em que numa pequena encenação para a família, um dos primos de Helena joga farinha num negro, para que ele ficasse branco ou quando a própria Helena se indaga a respeito das pessoas que sentiam pena dos escravos. Para ela, a ausência de trabalho é que a deixaria infeliz (página 143). Esses e outros casos contribuem para uma reflexão acerca da sociedade brasileira cinco anos após a abolição da escravatura, especialmente no que diz respeito à relação de trabalho entre brancos livres e negros recém-libertos que se estabeleceu e o preconceito racial nos primeiros anos da República.

A partir de seu diário, também podemos identificar o patriarcalismo ainda tão presente em nossa sociedade. O avô de Helena escolheu o marido de todas as filhas e elas só conheceram o pretendente no dia do casamento. Isso não se aplica à mãe de Helena, que casou-se após a morte do pai.

“Meu avô aceitava para as filhas o marido que lhe agradasse e se casava sem consultá-las. Ele tinha dez filhas. Os pretendentes pediam às vezes uma das filhas e ele respondia: ‘Esta, não; está muito moça. Vá aquela que é mais velha’”. Página 285.

A autora viveu num período de transição entre o segundo reinado e a proclamação da república e escreveu seu diário entre 1893 a 1895, dos 13 aos 15 anos. Logo, ela acompanhou, ainda que muito nova, as mudanças na política, como por exemplo, a posse do primeiro presidente eleito de forma direta, Prudente de Morais. Para ela, a mudança do presidente não afeta a sua vida em Diamantina.

“Eu sempre digo ao meu pai que não pode entrar na minha cabeça que tenha alguma influência para nós aqui na Diamantina mudança de presidente. Meu pai diz que tem toda, que o governo é uma máquina bem organizada e que o presidente sendo bom e fazendo bom governo beneficia o Brasil inteiro e chega até aqui para nós. Eu lhe disse que só poderia acreditar nisso se o presidente mandasse canalizar a nossa água e consertar o nosso calçamento.” Página 195.

Helena também observa com seu olhar de menina como o machismo diferencia homens e mulheres que fazem o mesmo trabalho. Em um trecho do livro, Helena comenta que acha curioso todo mundo dizer que seu pai é um bom marido e ninguém dizer que a mãe dela é uma boa mulher. Ainda que cuide da casa, dos filhos e do homem, dona Carolina, aos olhos da sociedade, não faz mais do que a sua obrigação e não há méritos nisso.

 Poderia citar outros trechos tão importantes para analisarmos o contexto sócio-histórico-ideológico em que Helena viveu, mas estes são suficientes para apontar que além de ser uma obra aclamada por escritores como Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa e por humildes leitores, como Ana Polo, Minha Vida de Menina é um documento histórico sobre uma menina que viveu no final do século dezenove e que relata, com muito humor, seu cotidiano e seus sentimentos mais íntimos.

Ao terminar a leitura, a sensação é de proximidade com a autora, como se tivéssemos compartilhado os mesmos dias na chácara, os passeios em Boa Vista, as inquietudes de uma adolescente de 13 anos e todos os outros momentos que fazem parte do enredo. Helena ou Alice, torna-se parte de nossa rotina também.

Um comentário:

  1. Boa tarde. Já comecei a ler o livro e gostei muito dis detalhes da autora. Att

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