domingo, 14 de maio de 2017

Tá feito, tia

Dizem que os pais não podem ter um filho favorito, mas nada foi dito em relação aos tios. De todos os sobrinhos, o Pedro, meu irmão, sempre foi o preferido da tia Cida. Ela costumava chama-lo de "meu gatão" e ele sorria, todo sem graça. Do outro lado da sala, eu e a minha prima revirávamos os olhos, mas lá no fundo, admirávamos o jeito carinhoso com que minha tia o tratava.

Hoje, enquanto estávamos voltando para casa, meu irmão pediu para passarmos no cemitério de Osasco. Eu sabia que ele queria ver a nossa querida tia, mas não esperava o que aconteceu quando chegamos ao seu túmulo. 

Ele levantou um portifólio e com a voz trêmula disse, tá feito, tia. Em seguida, ele abriu a pasta e me mostrou as fotos que havia feito num ensaio. A tia Cida costumava dizer que o Pedro deveria ser modelo, mas ele nunca levou a sério. Meu irmão nunca soube sorrir para fotografias, era tipo o Chandler do seriado Friends. 

Nós nos abraçamos e depois fomos embora. No carro, ficamos conversando sobre todas as coisas que deixamos para depois, achando que lá na frente, no dia seguinte, teríamos tempo de realiza-las. Até hoje, meu irmão carrega um peso enorme por não ter feito o book enquanto a tia Cida ainda estava viva. Eu, por outro lado, me arrependo de não ter uma única foto com ela. Por ser muito vaidosa, ela não nos deixava fotografa-la caso não estivesse "ajeitada". Eu sempre respeitei sua vontade. O que tenho são fotos do casamento dos pais, um tempo que está cada vez mais distante...

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