sexta-feira, 26 de maio de 2017

Quebra de ordem

Dia desses vi uma amiga chorando. Ela estava tentando disfarçar, mas os olhos vermelhos, as lágrimas rolando pelo seu rosto e todo o seu corpo pequeno a entregaram. Fui em direção a ela, mas com cuidado. Por ser ariana, sei que as mulheres deste signo costumam ser orgulhosas e engolem o choro com facilidade. Quando não dá mais para segurar, a gente desaba - e pode ser em qualquer lugar: na rua, na livraria, no ônibus, por aí. É claro que com ela não foi diferente. Sentei-me do seu lado e assim fiquei. Não a abracei, não a consolei, apenas me fiz presente para que assim, quando ela parasse de fitar o chão, olhasse para o lado e visse uma amiga. 

Enquanto estava ali, comecei a pensar em algumas coisas. Foram pensamentos rápidos, os quais tentarei organizar neste texto - ou apenas jogá-los, não sei. Veremos.

Pensei sobre a facilidade de se partir um coração, em seu sentido metafórico, é claro. As vezes, uma palavra basta. Uma entonação exacerbada que nos assusta. Uma pausa. O silêncio. Em outros casos, pode levar mais tempo, mas o efeito continua sendo o mesmo. A gente não tem noção do quanto a vida é rara. Digo isso, porque se soubéssemos, pensaríamos duas ou três vezes antes tocar na pele do outro.

Pensei na saudade. Algumas têm nomes, outras não. De qualquer forma, todas habitam dentro de mim. Na maior parte do tempo, permanecem em silêncio, mas há dias insuportáveis em que o peito fica apertado e a dor se entrelaça com as lembranças, formando um belíssimo nó na garganta - e não há acalento que o faça sair de lá. Então, toda vez que me sinto assim, toda vez que a minha memória resgata o meu  pretérito, eu fecho os olhos e respiro fundo. Faço uma oração bem baixinho. E mais uma vez, o nó se desfaz e desce, alojando-se em meu peito. Nunca é posto para fora.

Outros pensamentos surgiram, mas não faço tanta questão de compartilha-los. Basta saber que os senti. Basta saber, inclusive, que durante o tempo em que estive lá, companhia silenciosa e reflexiva, minha amiga parou de chorar. Enxugou as lágrimas e se recompôs.

Lembrei-me então, de uma frase do meu pai: vida segue, sempre.

Vida segue.

Voltamos ao trabalho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário