sexta-feira, 5 de maio de 2017

Pausa

A gente não percebe a mudança. Quer dizer, não de cara. Começa com um amigo, dizendo que você está muito distante. Depois, seus pais reclamam que você trabalha demais, que precisa descansar. Até perguntam sobre aquela série que você abandonou e a pilha de livros que ocupa mais espaço do que as suas roupas. O corretivo e a base acabam rapidamente; uma tentativa frustrada de disfarçar suas olheiras.

Um sentimento de culpa surge cada vez que você troca a pilha de trabalho por um dia no parque ou algumas horas a mais na cama, mas você o ignora. Seu círculo de amizade se reduz. Você tende, intencionalmente ou não, a passar mais tempo com os seus pares, porque há um conforto em saber que o outro não faz perguntas e nem pede contas de sua ausência. Afinal, compartilham da mesma rotina.

Relacionamentos? Ah, só a palavra já lhe pesa as pálpebras. Você é tomado por uma preguiça, prefere mudar de assunto, falar sobre o tempo, as notícias do dia, qualquer outra coisa menos complicada. As pessoas não se aproximam mais de você, julgam-lhe muito séria, muito ocupada. Está sempre fazendo algo. Por outro lado, você também não sente tanta vontade de sair. O flerte não lhe atrai. E em sua cabeça, não há espaço para o que você se acostumou a chamar de problema.

Ainda assim, consegue dedicar alguns minutos do seu dia a si mesmo. Prepara um café, assiste a um programa qualquer, dorme cinco minutinhos a mais. Por um tempo relativamente curto, tenta se esquecer das responsabilidades, dos boletos, das cobranças. Presta atenção no barulho da chuva. Pega o computador e começa a escrever um texto. Passa para as linhas do Word o emaranhado de sensações que existem dentro de você. Respira fundo.

Respira fundo mais uma vez...

E volta.

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