domingo, 7 de maio de 2017

23

Vinte e três.

Algumas mudanças são perceptíveis. Deixei o cabelo crescer, ganhei uns quilinhos, as espinhas, pelo menos boa parte delas, foram embora e depois de tanto anos de antibiótico, parece que não vão voltar. Outras mudanças são mais singelas. Tornei-me mais resiliente, algo que jamais pensei que fosse possível. Aprendi a ser mais paciente, ainda que eu precise confirmar para algumas pessoas que, por conta do meu signo, não acreditam de cara. Aprendi a me amar e as manchinhas na testa já não me incomodam mais. Já não penso em gastar setecentos reais para tira-las. Gosto dos meus seios pequenos e do meu quadril. Do meu sorriso, conquistado depois de mais de um ano usando aparelho. Do nariz arrebitado. Dos olhos sem cor definida, ainda que eu tenha que aceitar o fato de que eles nunca serão poesia para alguém... 

Gosto da família que tenho e das amizades que cultivei. Gosto quando alguém se sente confortável ao meu lado, e quando me diz coisas que jamais diria a outra pessoa. Gosto de abraços, mais do que deveria. Digo isso, porque sinto falta. Hoje em dia, recebo poucos abraços e raramente ofereço um. Aprendi a conviver com a solidão de uma vida inteira e a chorar apenas quando não houvesse mais espaço dentro do peito.

De uns tempos pra cá, mudei a postura. Sou mais reservada. Leio menos do que gostaria, mas me exercito mais do que jamais imaginei que fosse e o mais incrível: a corrida e os alteres se tornaram a minha válvula de escape. 

Eu me considerava dramática, até que me faltou tempo para tanto entusiasmo. Eu me considerava romântica, mas renunciei à esse título há alguns meses, quase um ano. Tornei-me a minha companhia favorita. Descobri o que me faz feliz, descobri o que me causa medo e com as minhas próprias mãos, construí um abrigo. Lá, me sinto segura. Ando descalça sobre a grama recém-cortada, colho frutas direto do pé, deixo o meu cabelo bagunçado ser guiado pela ventania forte. 

Vinte e três.

Eu não sei vocês, mas eu gosto de clichês, então aí vai um: o tempo passou rápido. 

Lembro do tempo que levava para dar boa noite às minhas bonecas e organiza-las em suas caminhas, feitas dos lençóis velhos da minha mãe. Lembro de todos os primeiros-dias-de-aula e do nervosismo que sentia antes dos passeios com a turma; do primeiro beijo no cinema; do último beijo no cinema também, das noites em que admirava o céu de Minas; dos rompimentos; das certezas se tornando dúvidas; dos banhos de chuva; dos fins e dos recomeços. 

Sabe, não sei o que deveria sentir ao completar vinte e três anos. Percebo as mudanças, mas não consigo explicar o que elas significam. Estou amadurecendo? Porque aqui dentro, sinto que ainda sou aquela menina com medo de trovões. Aquela menina de treze anos que era fiel às suas paixões platônicas. Teimosa, mandona e extremamente tímida. Pequena.

Vinte e três. 

Das mudanças perceptíveis àquelas que só eu reconheço. Entre elas, há um espaço que me é estranho, mas que julgo necessária a descoberta.

Estou indo.

Tenho uma vida inteira pela frente. 

Um comentário:

  1. Devo confessar, hoje descobri seus blogs vendo vídeos seus no YouTube e, realmente, lendo um pouco de sua história já pude m emocionar e sentir "o tempo passar". Obrigado por compartilhar suas histórias! Ah, e um feliz aniversário bem atrasado! PS.:Também sou taurino '_'

    ResponderExcluir