quinta-feira, 27 de abril de 2017

Silêncio

Ouço o barulho da porta e de imediato sei que é você, porque depois desse som, tudo volta ao silêncio. Quando você me chama, sinto uma certa ansiedade, esperando que você inicie algum tópico relevante ou não, qualquer coisa que nos mantenha prolixos pelos próximos minutos. Ao invés disso, depois do meu nome são monossílabos que se propagam pelo ar - e eu jamais imaginei que Ana seria a palavra mais longa que ouviria em qualquer sentença sua. Confesso que estou preocupada e por vezes tive vontade de gritar com você, para que você me olhasse e me dissesse qualquer coisa. No caminho para o trabalho, finjo que estou dormindo, porque eu não sei puxar assunto e você não faz questão de conversar comigo ou com qualquer pessoa. E cada vez mais, nós nos afastamos. Ironicamente, o silêncio que era nossa principal comunicação, hoje é apenas... silêncio. Eu não consigo segurar a sua mão. Eu não consigo encontra-lo. Sei que você está no cômodo ao lado, mas levo alguns segundos para reconhecer a sua voz. Tenho medo de perde-lo em vida, e o pior, não saber como lutar ou não conseguir entender porque estou lutando. Você mergulhou tão fundo. E eu estou aqui, te esperando no raso; balançando os pés para controlar a ansiedade, tentando disfarçar o que nos meus olhos está tão implícito. Fale, por favor. Fale, porque a palavra eu domino, mas teu silêncio, não. Teu silêncio zomba da minha facilidade em interpretar textos verbais; aponta o dedo na minha cara e diz "você não consegue me ler". Pois bem, assumo aqui a minha falha. Assumo que não identifico os teus pressupostos, mas que já criei centenas de subentendidos. Não consigo decifrar sua presença silenciosa: se é medo, melancolia, distração, desinteresse ou se é... você. É você? Por favor, diga que não... 

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