sábado, 18 de fevereiro de 2017

Certas escolhas

Foram incontáveis as vezes em que vi meu pai tentando me explicar o que, para mim, era inexplicável: as palavras podem ferir tanto quanto uma bala. 

Ele me olhava com aqueles olhos grandes, e era o que bastava para eu me arrepender. Contudo, eu não entendia. O que eu havia dito de mais? A culpa nunca era minha. 

Mas era, sim. 

Levei anos para entender. Só aprendi quando percebi que as pessoas estavam se afastando de mim, quando notei que as minhas escolhas lexicais eram propositais - eu sabia o que dizer, e mais do que isso, sabia qual intonação usar e o momento mais propício para fazer as pausas. 

Não preciso dizer que o arrependimento batia no instante seguinte, quando o silêncio causado pelas minhas palavras ficava insuportável. Então eu abraçava, pedia desculpas, prometia que aquilo nunca mais aconteceria de novo.

E não aconteceu.

Tempos depois, eu aprendi a controlar o impulso que existia dentro de mim, a ansiedade de dizer, de estar certa, de "prolixar", mesmo quando a batalha já estava perdida. Me encontrei no silêncio e guardei para mim o que julgava duro demais para colocar pra fora. Fiquei em paz. Muitos, por conta disso, poderiam dizer que era quieta, tímida. Não era isso...

Essas lembranças vieram à tona, porque recentemente eu senti o efeito do meu antigo hábito. O efeito, sim, porque dessa vez, eu era a ouvinte. Eu ouvi de alguém que, assim como eu, é íntimo das palavras, o que eu jamais pensei que fosse ouvir em minha vida. 

Quatro sílabas, pausas perfeitas, entonação adequada, enquanto que do outro lado, lá estava eu, de olhos fechados, sentindo as lágrimas quentes nos meus olhos, as mãos tremendo, numa ansiedade sem fim. 

Então, eu não apenas entendi o que o meu pai quis dizer, como senti o que ele sentia, quando as palavras saíam da minha boca como facas afiadas. Senti na pele, no peito. Abriu uma cicatriz antiga, me fez repensar meus passos, buscar na minha memória terrivelmente ruim, algo que justificasse aquela escolha lexical. E quem diria?

Eu, que sempre me preocupei em manter a pose de durona para os de fora, me esqueci que os de dentro também machucam. Afinal de contas, o que o outro diz sobre mim - aquele que eu não sei o sobrenome, o livro favorito ou que nunca dividiu o mesmo mar, chuva e céu comigo, não me importa, passa batido, fica do lado de lá. A dor só é sentida quando quem a causa é um amigo, um sorriso que conhecemos bem, um abraço que já foi ninho. 

Confiar em alguém implica entrega - não só de sentimentos, segredos e estórias, como também a entrega da única coisa que pode nos ferir, seja lá o que for. A gente entrega, sem pensar duas vezes. Pelo menos, foi assim comigo. Eu confiei, mesmo não querendo confiar. Permiti.

Aquela palavra saiu da sua boca e instantaneamente entrou em mim, através do meu ouvido direito, e agora não quer mais ir embora. Fecho os olhos e lá está ela, piscando com letras cursivas, sem ponto final ou letra maiúscula. Ela, que nunca pensei que fizesse parte de mim, hoje sinto como se fossemos velhas amigas. Sinto como se você estivesse certo, quando a usou para se referir a mim... 

E isso muda tudo. 

Não... NÃO!

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