segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Tia, um pedido

Apertei o passo quando vi seu quarto, no final do corredor. Sala duzentos e trinta e nove. Paciente Maria. Ela estava dormindo, fato curioso, uma vez que a máquina conectada ao corpo dela não parava de bipar. Eu não sabia se conversava ou se ficava em silêncio, mas a dúvida durou pouco tempo: a Thai começou a chamá-la e então percebi que ela não dormia, apenas descansava os olhos, cansados como todo o resto. Toda vez que perguntávamos algo, ela balançava a cabeça, num esforço além do esperado para manter conosco uma comunicação, ainda que singela e sem palavras. Me afastei da cama e fui em direção à janela do quarto, onde pude ver toda a cidade, as ruas em movimento, os carros entrando e saindo do estacionamento, os prédios mais distantes, a estrada. Olhar para fora me fez lembrar dos tempos em que, ainda menina, ela fazia pão na chapa e café com leite todos os dias, assim que eu voltava da escola. Afastei esse pensamento tão rápido quanto pude. Não havia sentido olhar para o passado, quando ela ainda fazia parte do meu presente e estava tão perto de mim. Me aproximei da sua cama novamente e peguei a sua mão, ignorando as exigências do médico de colocar as luvas. A sua magrelinha está aqui, tia. Eu disse, sem aguardar resposta. Os lábios dela se mexiam, procuravam a voz em algum lugar distante, sem conseguir de fato encontrá-la até o final do horário de visitas. E eu, tão cheia de palavras e respostas prontas, não consegui falar o tanto quanto gostaria. Não consegui dizer que a amo ou que sinto a sua falta. Não chorei, nem mesmo quando minha prima começou a orar em voz alta ou quando minha tia, através de ruídos que só a minha madrinha entendeu, pediu água. Guardei o choro para mais tarde e agora não consigo encontrá-lo. Se bem que perdê-lo é o de menos - há muito tempo aprendi a lidar com lágrimas reprimidas, mas não há no mundo algo que me faça aprender a lidar com a sua ausência. 

Fica. 

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