sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O fim

Eu me esforcei muito para não chorar enquanto tirava o pijama e me arrumava para pegar a estrada. Tínhamos acabado de receber a notícia da sua morte e estávamos indo para Minas, buscar o pai. Ele estava sozinho no sítio do meu avô e não queríamos que ele recebesse a notícia por telefone. O Pedro chegou em casa e pegamos a Fernão Dias. Que rodovia louca, tia. Você não faz ideia de quantas curvas sinuosas nós passamos e de quantos caminhões e ônibus de viagem ultrapassaram o Pedro. Paramos no posto de gasolina para comprar energético. Meia-noite.

Chegamos lá no sítio por volta da uma da manhã e por sorte, meu pai ainda estava acordado. Ele abriu a porta e minha mãe deu a notícia. Ele não disse nada, apenas sentou na cadeira e ficou ouvindo minha mãe falar, numa vontade desesperada, porém controlada de preencher o silêncio. 

Então, meu pai se arrumou e nós voltamos para São Paulo. Chegamos por volta das cinco da manhã e meu irmão estava tão cansado, que pediu para dormir um pouco. Minha mãe nos acordou duas horas depois e lá fomos nós para o velório.

Tia, preciso confessar uma coisa para você: 

Eu odeio velórios. 

Como a minha amiga me disse ontem, é como cutucar uma ferida ainda aberta, coçar com as unhas afiadas a pele machucada, correr uma maratona quando seus joelhos estão fracos, suplicando através das dores por um pouco de descanso. 

Quando chegamos lá, vi alguns tios e parentes desconhecidos. Não fui diretamente até você, tia, porque senti medo. Sabia que assim que eu ficasse diante do caixão, eu não conseguiria controlar as lágrimas, que até então estavam muito bem guardadas dentro de mim. E como você sabe, nossa família não é adepta à demonstrações públicas de afeto ou de dor. A gente guarda. Por quê? Bom, eu não sei e talvez nenhum Felício saiba.

O que eu sei é que desde pequena eu observo os meus pais e como qualquer criança, imito o comportamento deles. E eles não choram na frente de ninguém ou se isso acontece, pode ter certeza que eles choram pela dor e pela vergonha de chorarem na frente dessa pessoa. Certa vez, uma amiga minha foi comigo na casa de umas tias e minha mãe estava muito nervosa, porque falava do meu falecido tio. E então, sabendo que era impossível segurar as lágrimas, ela virou para essa amiga e pediu desculpas porque iria chorar. Somos assim.

Mais parentes chegavam. Depois de um tempo, começaram as pregações. Foram três pessoas pregar por você, tia. Mas aqui eu só quero falar de uma: seu irmão, o tio Zé. Talvez você não saiba, tia, mas eu tenho uma péssima memória. Contudo, algumas coisas me marcam tanto que eu sei que jamais esquecerei. As primeiras palavras do tio Zé são um exemplo disso.

Como vocês sabem, eu sou pastor e já fiz muitos batizados, casamentos e velórios. Mas eu nunca imaginei que algum dia eu velaria a minha irmã.

Esse é o momento em que você tem que me perdoar, tia. Me perdoe, porque eu chorei. Coloquei os óculos escuros e senti as lágrimas quentes ao redor dos meus olhos, presas por causa das lentes. Várias vezes uma outra escapava, seguindo caminho pelas minhas bochechas e depois caindo no chão. Cinco gotinhas de tamanhos diversos estavam lá, próximas dos meus pés. Enquanto isso, o tio Zé falava sobre o perdão. E as pessoas olhavam para baixo, porque olhar para ele ou para o caixão seria doloroso demais.

Um pouco depois, seu caixão foi fechado, tia. O pai, o Pedro e os tios ajudaram nessa parte. Um funcionário veio e depois de colocar o caixão no carrinho, seguimos para o cemitério. Poucas pessoas acompanharam, tia. Eu fui uma delas. Fiquei lá, na sombra de uma árvore, até quando fazia sentido, se é que em algum momento tudo isso fez algum sentido. Fomos embora sem nos desperdimos dos outros que ficaram do outro lado da rua.

E foi assim, tia, o último dia em que ficamos juntas. Dois dias depois em que eu pedi para você ficar. Gostaria de aproveitar e pedir desculpas por isso, pelo meu egoísmo, por não entender que seu sofrimento era grande e que ficar não melhoraria as coisas. 

Eu não sei como vai ser daqui pra frente, tia, mas também não quero que você se preocupe com isso. Vamos dar um jeito de continuar as nossas jornadas. Vamos aprender a respirar de novo, ignorando o aperto no peito. E eu lembrarei de você todos os dias. E da sua ausência ficará apenas a saudade boa, as lembranças que me farão sorrir de novo, o amor que permanecerá vivo em mim.

O amor que não muda, o amor que fica, para lembrarmos todos os dias o ser humano incrível que você foi.

2 comentários:

  1. Ah, que pena. Fiquei triste pela sua tia. Minha família também é assim: abraços curtos, beijos raros, poucas palavras de carinho. Mesmo assim consigo sentir todo o amor que vive por aqui. Gostaria que fôssemos mais carinhosos entre nós e que eu poderia começar a fazer isso, mas é difícil mostrar afeto quando você se acostuma a ser assim.

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    1. É verdade, Deivis. É difícil até com amigos...

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