terça-feira, 8 de novembro de 2016

A volta

Se alguém tivesse me dito o que aconteceria naquela noite, eu não acreditaria. Poderiam ter me alertado algumas semanas antes e eu deixaria pra lá. Mas foi sem aviso prévio. Quando vi, centenas de pedacinhos dele estavam espalhados pelo chão. Levei um susto quando me levantei para ir ao banheiro, pois eu não tinha visto ele cair. Caminhei na ponta dos pés, tomando cuidando, pois não sabia se aqueles pedacinhos eram cortantes. Quando cheguei na porta, olhei para trás: meu quarto estava uma bagunça. Além dele, dezenas de lenços usados estavam enrolados no chão. Mas eu não conseguia dar a mínima para isso. Eu só queria sair dali, daquela bagunça que eu mesma fizera. Mal sabia que aquele era o início de tudo.

Voltei mais tarde do que o de costume. Levei alguns meses para reorganizar meu quarto, até o dia em que eu me senti orgulhosa: tudo estava em seu lugar. Nenhum pedacinho do que um dia fora plural no chão. Nenhum lenço. Fiz a cama. Arrumei o guarda-roupa. Empilhei os livros. Nenhum fio de cabelo caído, nenhuma folha solta em cima da mesa. E assim, com muita ordem, segui em frente.

Até mesmo quando me despedia, não olhava para trás. Não brinquei com o meu primo de imitar o Curupira e toda vez que eu esquecia algo no quarto, sentia um peso por ter que voltar. Evitava qualquer coisa que me levasse a algum lugar que já tinha ido. Mudei o caminho da faculdade, do serviço. Fui deixando a rotina tomar conta de mim, me acalentar em seus braços, sossegar um vazio que estranhamente, gritava dentro de mim.

Quando ela cruzou meu caminho, mal pude enxergá-la. Estava usando o meu antolho. Quando ela me abraçou pela primeira vez, não senti. A minha pele estava coberta por uma proteção que eu mesma fizera e ao invés de tocar meus braços, o que ela tocou foram as paredes, frias e duras que colocara por todos os lados. Quando ela disse o meu nome, não respondi. Achei que estava falando com outra pessoa.

Até que em algum momento, e aí, leitor, você terá que me perdoar, pois sou péssima para datas, ela veio atrás de mim. Ela cruzou meu caminho de novo. Tocou a minha pele. Me chamou pelo nome tantas vezes que nem sei. E eu fiz tudo o que eu costumava fazer desde aquela noite, quando meu coração fora feito em pedaços: me organizei. Fiz algumas listas e levava uma caneta comigo para marcar o que já tinha realizado. Me enchi de compromissos vazios, para combinar com a minha vida. Fugia dela e dos seus olhos, que insistiam em seguir os meus. Corri para casa toda vez que sentia a minha pele um pouco mais quente.

Aos poucos, me dei conta de que estava cansada, cansada demais. A rotina já não estava mais ali para me acalentar. e algum observador mais atento poderia julgar que aquela mulher queria ocupar o espaço da rotina. Só que eu sabia que não teria sossego, caso deixasse ela ultrapassar os limiteres da minha muralha. Ela viraria tudo do avesso. Zombaria das minhas listas, para depois rasgá-las. Me levaria a todos os lugares que eu já tinha ido, e ainda assim, faria com que eu me sentisse deslocada, porém estranhamente feliz. Riria da minha seriedade, de tal forma que eu riria também.

Aconteceu.

A primeira vez que percebi, foi quando me olhei no espelho e percebi que aquelas roupas, que eu sempre amara, de repente não serviam mais. Ficaram largas - não por ter emagrecido, aliás foi o oposto que aconteceu, durante o tempo em que me guardei lá no fundo da minha existência. Mas por alguma razão que não compreendo, entendi que aquelas roupas eram como a minha rotina: não servia mais. Era como se eu não coubesse mais naquele espaço, extremamente apertado que criei para mim. Eu estava enclausurada e não tinha percebido.

Fiquei sem ar.

E por muito tempo, foi difícil respirar. Mas aos poucos, pude sentir que o ar que enchia meus pulmões era limpo e novo. Meus olhos demoraram algum tempo para se acostumar com a luz - eu não tinha percebido, mas durante todo aquele tempo, eu tinha me acostumado com a escuridão. Quando ela tocou a minha pele, tomou um susto ao perceber que estava quente. Eu não pude evitar a minha estranheza, e estranhamente, senti vontade de sorrir.

E sorri.

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