quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Tia

Pés.
Inchados como nunca vi igual, nem mesmo nos episódios de House M.D. Sua pele, em outros tempos branca e fina, está roxa e não ouso mensurar a dor que ela sente quando firma os pés no chão. Cada passo exige uma oração. Cada. Passo.
Pernas.
Há pintinhas vermelhas e marrons em toda a parte. Estão subindo, como se nem elas suportassem ficar perto dos pés. Elas avançam, já ultrapassaram os joelhos e se espalharam nas coxas. 
Barriga.
Cheia d´água. Incoerente com todo o resto. Ela a cobre com um lençol limpo. 
Rosto.
Há poucos vestígios da beleza que marcou a sua juventude. Os olhos estão caídos, a boca é um vestígio e a voz que sai também adoeceu. 

Eu gostaria de dizer que esse é o antes, mas o tique-taque do relógio marca o agora. Ela está aqui. O ventilador espalha os guardanapos deixados em cima da mesa. A televisão está ligada, mas quase não dá para ouvir. As cores há muito tempo se desbotaram, tudo é pálido, frio, incerto. Quando toco sua mão, sinto o calor da sua pele e a aspereza dos calos. Aperto, para que ela saiba que eu estou aqui e não vou deixá-la. Ela sorri com os olhos. Ela é tão linda, linda e pequena. Leve, como uma folha. Como a própria vida.


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