segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Não tinha me notado do quão pequena ela estava até então. Seu corpo ocupava o centro da cama, seus pés tocavam o travesseiro, sua cabeça estava longe do fim da cama. Foram as beiradas que me fizeram compreender o que já estava ali há muito tempo, o amanhã incerto, as dores contínuas, muitas vezes nem sentidas mais; fazem parte de mim, amor, ela vivia me dizendo. Abaixei-me até encontrar as suas bochechas e a beijei. Não conseguia olhar em seus olhos, então me concentrei nas pintinhas que percorriam toda a sua pele. Ela perguntava sobre o meu dia, o que eu tinha feito. Eu respondi que fora na igreja, quando estivesse boa iria conhecer, disse ela. Ainda que tivesse espaço de sobra na cama, decidi ficar em pé. Ela parecia tão pequena. Foi a primeira vez que vi a minha avó deitada.

Meu avô tinha bebido, mas ao invés das brincadeiras de sempre, ele estava silencioso e a geladeira fazia-se mais presente do que ele. Enquanto almoçava, esperei ele dizer que eu mastigava de boca aberta, que desde ontem que ele não almoça ou pedir a farinha guardada no armário. Ao invés disso, ele tinha ido se deitar, cansado demais para se despedir.

Foi a visita mais rápida que fiz na casa deles. Meu vô ainda estava dormindo, mas a minha avó levantou-se da cama, me beijou nas bochechas, segurando meu rosto com as suas mãos e disse "te amo". Ela costumava dizer sempre assim, sem o uso do pronome pessoal. Te amo, te amo, te amo, as vezes, quando ela queria ser mais enfática. Eu respondi "também", deixando o meu pronome do ladinho dela. 

Em troca, levei o seu verbo, maior do que qualquer outro que eu já tinha guardado; e me esqueci completamente da cama.

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