segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Vasto Mar de Sargaços (Jean Rhys)

Jean Rhys
Certa vez, Jean Rhys (1890-1979) decidiu reler a obra mais famosa de Charlotte Brontë (1816-1855), Jane Eyre (1847) e a partir daquela releitura, ela percebeu que algo estava errado: a personagem Bertha fora completamente ignorada ao longo do romance, sua história, sua "loucura", a maneira como Mr. Rochester a tratava, tudo parecia errado para Jean. Apenas para contextualização, Bertha é esposa de Mr. Rochester, mas por ser considerada louca, vive trancafiada no sótão e sua presença quase não é percebida na mansão.

É muito provável que quem já leu Jane Eyre não deu a mínima para Bertha, uma personagem secundária, retratada como a "louca do sotão" e que inevitavelmente atrapalha os planos de Mr. Rochester. 

A descrição que ele faz de Bertha deixa claro a sua aversão:

Bertha Mason é louca... ela veio de uma família de loucos; idiotas e maníacos por três gerações! Sua mãe, a crioula, era tanto uma louca quanto uma alcoólica" - como descobri depois que me casei com a filha: pois eles eram silenciosos sobre os segredos da família anterior ao casamento. Bertha, como uma boa filha, copiou seus pais nos dois aspectos... Oh! minha experiência tem sido desastrosa, se você pudesse saber! 
A partir da releitura da obra, Jean começou a desenvolver uma história para Bertha e foi assim que nasceu o livro Vasto Mar de Sargaços. É importante ressaltar que ambas (autora e personagem) nasceram no Caribe.


O livro é dividido em três partes: a primeira é a narrativa da infância de Bertha (por volta da década de 30-40), contada por ela mesma. Neste momento, seu nome ainda é Antoinette e ela mora com a família em Spanish Town (Jamaica), num ambiente muitas vezes descrito como ameaçador, selvagem, hostil, principalmente para europeus. Os negros odeiam a sua família e em certa ocasião, colocam fogo na casa deles. 
Os pretos não nos odiavam tanto quando éramos pobres. Nós éramos brancos, mas não tínhamos escapado e logo estaríamos mortos porque não tínhamos mais nenhum dinheiro. O que havia para odiar? (Página 28-29)
Há boatos em toda parte de que a mãe de Antoinette é louca e de que ela será também. 
- Olha a menina maluca, você é maluca igual a sua mãe. (...) Ela tentou matar o marido e tentou matar você também naquele dia que você foi visitar. Ela tem olhos de zumbi, e você também tem olhos de zumbi. Por que você não olha pra mim? (...) (Página 44-45)
Depois do incêndio, Antoinette é afastada da mãe, que tentou matá-la certa vez em que a menina fora fazer-lhe uma visita, então seu padrasto a coloca num colégio interno e nesse tempo, sua mãe acaba falecendo. Na parte dois do livro, temos o retorno de Antoinette para a casa do padrasto e a aparição de Mr. Rochester.

Neste segundo momento, há narrativa é contada pelo próprio Mr. Rochester, contudo em nenhum momento há citação direta de seu nome, o que pode ter sido uma estratégia da autora para enfatizar que o foco não está em seu personagem, mas sim no de Antoinette ou Bertha (este foi o nome pelo qual Mr. Rochester a chamava, uma tentativa de distanciar a imagem dela com toda aquela cultura que ele negava). 

Quem leu o romance de Charolette Brontë sabe que o casamento de Mr. Rochester com Bertha foi arranjado pelo pai e pelo irmão do noivo. Ele nunca a amou e não suportava viver naquele lugar também descrito por ele como hostil. Sua vontade era voltar para a Inglaterra, mas Antoinette sentia medo. 

Muitas pessoas riam de Mr. Rochester, pois diziam que ele tinha se casado com uma louca, exatamente como a mãe. Algumas, inclusive, sentiam pena. Fofocas cercavam-no de todos os lados, até cartas ele recebeu, alertando-o do azar que tivera. Até o momento em que Mr. Rochester repudia tanto a mulher, que esta chega ao estado de desespero e ela acaba por abraçar a loucura que desde a infância lhe fora sentenciada.

Chegamos à terceira parte do livro, em que é descrita a vivência da então Bertha na mansão do Mr. Rochester. Trancafiada no sótão e esquecida por todos, exceto por Grace Poole, Bertha não tem noção de quanto tempo está naquele quarto e curiosamente, a própria Jane Eyre passou pela mesma experiência quando era criança. Lembram-se do quarto vermelho em que a tia a deixou por dias seguidos? Segue alguns trechos importantes da narrativa de Bertha:
Neste quarto, eu acordo cedo e fico deitada tremendo porque faz muito frio. (Página 77)
Quando cheguei aqui, achei que seria por um dia, dois dias, uma semana talvez. Pensei que quando o visse e falasse com ele eu seria sábia como as serpentes, mansa como as pombinhas. "Eu lhe dou tudo o que tenho de boa vontade", eu diria, "e nunca mais o incomodarei se você me deixar partir." Mas ele nunca veio. (Página 77)
Como está muito bem colocado no prefácio do livro, escrito pela Professora de Literaturas de Língua Inglesa na Universidade Federal Fluminense, Carla Portilho, "o romance funciona como uma 'introdução' a Jane Eyre, uma releitura construída a partir de um ponto de vista pós-colonial" (página 7). Em ourtas palavras, Jean Rhys deu voz àqueles que foram silenciados pela imposição do colonizador: seus costumes, suas crenças, enfim, o choque entre culturas tão distintas sufocaram por tempo demais a identidade nacional e mais profundamente, a identidade pessoal - basta olhar para Antoinette, que tem seu nome, suas origens e sua cultura negada pela figura do Mr. Rochester.

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