domingo, 7 de agosto de 2016

A recepcionista e a passageira do ônibus

Saí do serviço duas horas antes para chegar na consulta pontualmente às 16h30. A clínica era em Alphaville e para chegar foi tranquilo: um trem e um ônibus. Sentei ao lado do cobrador e fui. 

Chegando lá, bad news: o convênio não estava mais cobrindo essa pobre estagiária que vos escreve. Tentei desenrolar com a recepcionista, mas não consegui. Fui ligar, sem crédito nos dois chips. Pedi para ela entrar em contato com o convênio e ela disse que o médico não autorizava. Oi? Ok. 

Saí de lá frustrada, mas não antes de ignorar propositalmente a recepcionista. Não lhe desejei uma boa tarde.

Voltando para o ponto de ônibus, pedi informação. Qualquer linha que passasse em qualquer estação da CPTM estava ótimo. Segui a orientação de uma funcionária da linha municipal, que me indicou o ônibus que já estava saindo, direto para a Carapicuíba.

E ele seguiu para Carapicuíba mesmo, mas não para a estação de trem.

Após uns trinta minutos, perguntei à passageira que estava do meu lado se era comum demorar tanto para chegar na estação de Caracas City. Ela disse que não, que já tínhamos passado há muito tempo o ponto mais próxim da estação.

Merda.

Fiquei ligeiramente angustiada, levemente desesperada.

Uma moça, que estava em pé, percebeu meu estado e disse para eu descer com ela no próximo ponto, que ela me deixaria no ônibus certo. 

Agradeci e olhei minha bolsinha. R$ 2,80. O último ônibus que eu peguei era intermunicipal e aquelas linhas não trabalhavam com Bilhete Único. Estava sem dinheiro.

Assim que descemos do ônibus, perguntei se ela poderia me levar ao caixinha mais próximo, para eu sacar dinheiro. Ela me olhou e disse para eu não me preocupar com aquilo. Normalmente, eu iria parar e perguntar "como?", mas eu apenas concordei e a segui.

Ela atravessou comigo e ao longe ela avistou o ônibus certo para mim. Eu já estava preparando uma desculpa para o cobrador, quando ela abriu a bolsa, tirou R$ 10,00 e me entregou.

Ali eu comecei a chorar.

Tentei recusar, perguntei se ela não tinha R$ 2,00, mas ela balançou a cabeça e colocou os R$ 10,00 dentro da minha bolsinha. Eu a abraçei e agradeci. Ela deu o sinal para que o ônibus parasse e eu subi. Ela ainda disse "vai com Deus", mas não deu tempo de responder. O motorista já tinha fechado as portas.

Cheguei na estação e logo eu já estava encontrando a minha mãe no caminho. Voltamos juntas, ela ouvindo as minhas desventuras, xingando o convênio de vez em quando e ressaltando em cada frase, que ainda existem pessoas boas e que de tudo aquilo que havia acontecido, eu deveria levar apenas o que aquela mulher fez por mim.

Levei.

No mesmo dia, me deparei com duas pessoas completamente diferentes, a recepcionista, que não deu a mínima para o meu problema, sequer pensou em me ajudar e a passageira do ônibus, que sem saber o meu nome, me estendeu a sua mão e me ajudou. 

Claramente, a vida seguirá essa repetição de encontros, o que me deixa um pouco preocupada. A quantidade de pessoas como essa recepcionista supera muito a de pessoas como a passageira. E o pior: não dá pra saber quem é que vamos encontrar no nosso caminho ou com qual das duas seremos mais parecidas no decorrer dessa viagem. É somente através de situações como essa que descobrimos para qual lado tendemos a inclinar mais. E eu não consigo parar de me perguntar como eu fui até agora, se estendi mais a minha mão do que guardei-a no bolso, se ofereci o que tinha para alguém que precisasse ou se simplesmente aceitei que não era um problema meu, se mostrei o caminho quando eu o sabia de cor ou se me calei e não apontei a direção correta.

Mas ainda dá tempo de descobrir. Todos os dias, aliás. 

Uma nova chance de ser mais parecida com a passageira. 

"Vai com Deus", ela disse.

"Fica com Ele", eu então lhe responderia, mas na vida, quase nunca temos tempo para a despedida.

3 comentários:

  1. Oi Ana, tudo bem? Te acompanho desde O Laço Cor de Rosa, muito prazer. Eu gostaria de tirar uma dúvida com você, como faço pra entrar em contato? Beijos!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Existe, e acredito que seja a maioria no mundo, as pessoas boas. Acho que essas sim devemos nos espelhar. Acredito na corrente do bem, se ela lhe ajudou, agora vc tem uma divida com o universo. Deve ajudar alguém quando tiver oportunidade. Melhor ainda, ajudar muito mais pessoas, que do mesmo jeito que podemos dever, também ganhamos créditos. Claro, devemos ajudar sem esperar algo em troca, isso é fato, mas o não esperar se aplica a pessoa que vc ajudou, dessa não devemos esperar nada, e nunca cobrar. Mas o universo ajuda, é a lei do retorno, se vc planta o bem, o bem virá a vc, se planta o mal,o mal o vem. A passageira talvez foi ajudada num momento anterior, ou ainda será ajudada. e vc vai poder agradecer a ela, ajudando outras pessoas. Fazendo isso vc não corre o risco de ser a recepcionista, apesar que tem dias que somos ela, não somos perfeitos.

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