quinta-feira, 30 de junho de 2016

Conceda-me a graça do seu esquecimento*

Não importa se tivemos uma briga ferrada hoje à noite, amanhã de manhã, no que depender de mim, já estaremos bem, podemos até oficializar se você quiser, dizendo que fizemos as pazes e nos abraçarmos em seguida, mas se não achar necessário, tudo bem também. Para mim, nenhuma discussão vale mais do que algumas horas. Tudo isso além do fato de que fui abençoada com uma péssima memória, ou seja: é bem provável que eu não lembre o motivo da briga no dia seguinte ou algumas semanas depois. Não guardo rancor, por não guardar tantas lembranças.

Contudo, há uma pequena exceção nessa história toda. Há uma discussão que eu particularmente não consigo esquecer. Eu ainda era criança e tinha respondido para o meu pai. Isso costumava ser algo raro, porque nós sempre nos entendemos em nosso silêncio. A gente se comunica através dele, inclusive. 

Porém, não podemos nos esquecer do fato de que eu fui uma criança respondona e mal-humorada. Quando as coisas não aconteciam do meu jeito, eu emburrava e o bico que eu fazia dava pra ser visto de longe. As vezes, ficava por isso mesmo, mas em outras ocasiões, quando eu extrapolava os limites, abria o berreiro e dizia o que eu considerava boas verdades para o meu pai.

Eu dizia que não o amava, que ele era o pior pai do mundo, coisas assim. A intenção era chamar a sua atenção e uma vez atingido esse objetivo, sabia que ele sairia de seu silêncio para falar umas boas verdades para mim também. 

Nesse dia, ele disse que o meu gênio era tão forte que seria muito difícil alguém conseguir ficar do meu lado por muito tempo, que eu só tinha a perder por ser tão explosiva e parecida com a minha mãe e finalmente, que aos poucos, eu afastaria todo mundo que me ama de mim. 

O choro parou na hora. Arregalei os meus olhos e entrei em choque. Pude me imaginar sozinha naquela casa grande, sem meus pais, sem meu irmão, sem a Pandora. Todos tinham ido embora. Eu conseguia vê-los andando para longe da casa, provavelmente indo morar na casa da minha avó, porque eu era impossível. 

Esqueci os motivos que me levaram a brigar e corri em seus braços. Pedi para ele não ir embora, para nunca me deixar sozinha. Seus olhos estavam marejados e naquele momento eu soube que ele tinha se arrependido do que dissera. Então, ele disse para mim que nada daquilo iria acontecer, mas que eu precisava controlar a minha raiva e tomar cuidado com o que eu falava para os outros. Eu prometi que mudaria, que seria uma pessoa melhor.

No dia seguinte, ainda me lembrava da briga.

E depois, e depois, e depois...

Todos os dias, desde então, eu me lembro daquelas palavras. É claro que não vivo em função delas, mas elas estão lá, fazem parte das minhas orações diárias, porque todos os dias, só há uma única coisa que eu peço para Deus:

Quero ser uma pessoa melhor, quero ser uma pessoa melhor para não afastar todo mundo de mim...

É claro que nós fizemos as pazes no dia seguinte, é mais do que óbvio que não sou mais aquela criança, mas o medo ainda existe. Acaso seria esse o meu futuro? Viver sozinha?

Ontem de manhã, me despedi do meu ex-namorado, que conhece essa história melhor do que ninguém. Como queremos ser amigos no futuro, confessei que eu tinha a certeza absoluta de que agora que ele estava indo embora da minha vida, as palavras do meu pai estariam mais próximas de se concretizar. Ele negou, disse que meu pai estava enganado. Não senti firmeza e confesso que nem a pessoa mais confiante do mundo me faria acreditar num outro destino para mim. Quando coloco alguma coisa na minha cabeça, é difícil alguém conseguir tirar. 

Para mim, não há dúvidas, nem mesmo o que pensar sobre o assunto. Porque parafraseando aquele livro ruim sobre adolescentes desocupados, eu aceitei o futuro que eu acredito merecer. Quero professorar, viajar, passar muito tempo com a minha família e amigos, mas tenho a plena convicção de que todos os dias da minha vida, voltarei para casa sozinha. Serei feliz no singular. 

E todas as metades serão minhas.

*Link da publicação.

Um comentário:

  1. Caramba, Ana... Você sabe mexer com as pessoas, suas palavras me fizeram chorar. Não acredite que você irá afastar a todos, você é uma pessoa maravilhosa e tenho a certeza de que não precisa de uma metade pra ser feliz. Já ouvi várias vezes que "pra ser feliz a dois, é necessário primeiro ser feliz sozinho", e acredito mesmo nisso... Ninguém é metade, somos todos inteiros em busca de companhia, e independente de qualquer coisa, seus pais nunca irão te deixar (no sentido da coisa)... Não tenha medo, Ele SEMPRE vai estar contigo. Beijão :*

    ResponderExcluir