quinta-feira, 17 de maio de 2018

Ansiedade

A sensação é a de que você está dentro de um quarto escuro. Você nunca entrou nesse cômodo e não tem noção de suas dimensões. Não há janelas, nem goteiras, nada que permita a entrada da luz. Por estar em um ambiente fechado, respirar torna-se uma tarefa penosa – é necessário um esforço imenso para puxar o ar dos pulmões.

Um arrepio eventualmente percorre a sua espinha e uma tremedeira azucrinante controla os seus extremos – mãos e pés tornam-se inúteis. A vontade de chorar é imensa, mas você não pode se dar esse luxo agora. Todo o seu corpo precisa se concentrar em sair dali. Quimericamente, aliás, você acredita que pode sair.

Então, alguém acende as luzes. Após alguns segundos de irritação causada pelo clarão, você abre os olhos e observa o espaço.

Há pessoas em volta do quarto, encostadas nas paredes, bebendo, fumando, olhando diretamente para você. Alguns grupos cochicham, outros, encaram, e têm aqueles que zombam do medo que exala de sua pele – poder-se-ia afirmar que eles estão sentindo o perfume, doce e angustiante.

Olham para a sua roupa.

Pele.

Corpo.

Movimentos.

Posição dos braços.

Acompanham os seus olhos.

As observações são feitas em questão de segundos. Sua mente rápida reconhece o perigo e impulsos nervosos causam aquela ligeira e inquieta vontade de gritar. Você os controla. Limita-se a aceitar a tremedeira que nunca passa quando é preciso. 

Então, tentando evitar o contato visual, você se levanta para cumprimenta-los. Ao aproximar-se daquelas pessoas, surge uma nova perspectiva, como se tivessem colocado óculos em você: ninguém estava te olhando. Não há observadores, apenas diálogos truncados e egoístas. Cada um está competindo para falar mais de si. Sua presença é irrelevante dentro desse cenário.

Após cumprimentar cada um, quase voltando para o centro do quarto, seu local de origem, você percebe que há uma porta. Basta dar mais alguns passos para ir ao encontro dela. Sua mão já toca a maçaneta, agora é questão de girar. Então, emitindo o mínimo som possível, você deixa o aposento, fechando a porta com força, segurando por mais alguns segundos para ter certeza de que ninguém tentará abrir.

Respira.

Inspira.

Respira.

Você está sozinha de novo. Não há mais perigo.

O fôlego surge dentro de seus pulmões como se estivessem ali pela primeira vez. O tremor e o temor passaram. Tudo passa, enfim.

sábado, 14 de abril de 2018

Conversas com um jovem professor, de Leandro Karnal



Publicado em 2012 pela Editora Contexto, Conversas com um jovem professor, de Leandro Karnal, é um livro que traz as experiências vividas pelo autor em sala de aula com a intenção de ajudar os iniciantes na área docente. De forma simples e cuidadosa, Karnal “conversa” com seus colegas de profissão, compartilhando seus sucessos e fracassos em sala de aula.

Os assuntos abordados são diversos – o primeiro dia de aula, que pode gerar angústias e frustrações; a relação com os pais, colegas e diretores; a preparação e a aplicação de provas e o uso de tecnologia são alguns exemplos. Além disso, há um capítulo que trata sobre a disciplina, sob o olhar da professora Rose Karnal.

Outro aspecto interessante no livro é que no final de cada capítulo, o autor sugere filmes, a fim de ampliar ainda mais a discussão. As recomendações acompanham um breve resumo sobre o enredo da obra e de que forma o filme dialoga com a leitura. Nas últimas páginas, o autor também sugere textos de outros autores, com o intuito de promover a reflexão. Dentre eles, A Didática Magna, de Comenius, o primeiro a pensar em educação para todos.

Em suma, a leitura proporciona ao jovem professor um amplo repertório prático sobre algumas situações comuns no ambiente escolar. Particularmente, eu fiz várias anotações e muitas das experiências de Karnal estão contribuindo, de várias formas, com as minhas atividades em sala de aula.

terça-feira, 10 de abril de 2018

O Evangelho Segundo Jesus Cristo (José Saramago)


Esse livro já está na minha estante a algum tempo. Não o li antes, devido às inúmeras atividades que teimam em ficar na frente. Porém, é preciso admitir: todas as vezes em que eu passava pelo quarto e o olhava, sentia a necessidade de devorá-lo o quanto antes. E foi o que eu fiz: durante um mês, ele me acompanhou por todo o trajeto até à escola. Que bela companhia!

Publicado originalmente em 1991, O Evangelho Segundo Jesus Cristo narra a história mais conhecida de todas, aquela que nos é contada desde pequenos. Porém, ainda que os personagens sejam os mesmos - Jesus, seus pais, os discípulos, Deus e o Diabo, entre outros -, Saramago atenta-se aos detalhes (e acrescenta outros) que em nossas leituras do Novo Testamento passam despercebidos. 

Muito mais preocupado com o lado humano do que com os milagres, o narrador acompanha a vida de Jesus desde a sua concepção até o dia de sua morte, compartilhando com nós, leitores, os sofrimentos do carpinteiro José pelo o que acontece em Belém, a submissão e o desemparo de Maria, o relacionamento do Filho do Homem com Maria de Magdala, entre outras passagens. 

Há, também, o diálogo entre Jesus, Deus e o Diabo na barca em meio a um nevoeiro que durou trinta dias. Neste encontro, Jesus tem uma breve explicação sobre como será o futuro após a sua morte. Para mim, foi um dos momentos mais interessantes e importantes do livro. 

Depois de uma leitura densa como essa, vou precisar de um tempo para me recuperar... que escritor, minha gente! Que escritor!

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Vou começar o curso de Pedagogia!


É isso mesmo, leitores queridos! Em 2016, terminei a minha graduação em Letras. Ano passado, depois de algumas experiências que vivi na outra escola em que trabalhei, comecei a considerar a possibilidade de começar uma segunda graduação, dessa vez, em um curso que sempre me atraiu muito: Pedagogia.

Então, sem contar para ninguém - apenas o meu namorado sabia, eu me inscrevi para prestar o vestibular da Fuvest. Imaginem só a minha surpresa quando eu passei para segunda fase? E quando eu passei na segunda chamada?

Fiquei muito feliz, leitores. Por isso estou aqui, para compartilhar com vocês mais uma conquista. 

Ainda nesta semana, vou gravar um vídeo explicando melhor os motivos que me levaram a querer cursar Pedagogia.

Um beijo e bom domingo!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Como eu inicio as minhas leituras (vídeo)


Oi, leitores!

Tudo bem com vocês?

Hoje eu quero compartilhar com vocês o último vídeo que postei lá no canal. Espero que gostem!

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Três Sombras, de Cyril Pedrosa


Três Sombras não é um livro que deve ser lido rápido, apesar de sua estrutura nos remeter o contrário. Em formato de quadrinhos, somos apresentados a uma família que vive no campo e desfruta de todos os prazeres que a simplicidade pode oferecer.

Porém, num dia qualquer, a família avista três sombras montadas em cavalos surgirem no horizonte. Apesar da distância, Louis e Lise, ficam intrigados com aquela aparição. Por que elas estavam ali?

Com o passar do tempo, Louis se dá conta de que as sombras estão ali para buscar Joachim, filho do casal. Por mais triste que estivesse, Lise entende a situação. Seu marido, contudo, recusa-se a permitir que as sombras levem o seu filho. Então, Louis toma uma atitude arriscada: parte com Joachim para uma viagem sem destino certo, a fim de enganar aquelas figuras enigmáticas.

Durante a jornada, muitos são os personagens e os perigos que os dois irão conhecer, enquanto tentam desesperada e inutilmente escapar da morte.

Como disse no início desta resenha, este não é um livro que deve ser lido rapidamente. O leitor deve atentar-se a cada quadrinho, especialmente aos movimentos e expressões das personagens, tão importantes quanto os diálogos que compõem os balões.

A angústia de Louis quase é palpável e por muitas páginas senti vontade de chorar, lamentando pelo destino que fora traçado para Joachim. A força de Lise, por outro lado, despertou em mim o entendimento que quase sempre fazemos questão de esquecer: a morte faz parte da vida. Por mais que não estejamos prontos para ela, temos que aceitá-la, pois só assim poderemos viver em paz.