quarta-feira, 17 de abril de 2019

Nova antologia poética de Mário Quintana

Ler Mário Quintana é sempre um prazer inenarrável. Gosto do poeta - e gosto de decorar alguns de seus versinhos que mais me cativam. “Eu queria trazer-te um versos muito lindos... / trago-te estas mãos vazias / que vão tomando a forma do teu seio.” Seus textos são assim, imagético, sintático e urgente. E de uma delicadeza que me deixa boba.

Nesta antologia, deixe-se levar pela visão cotidiana do poeta de Alegrete, cidade do Rio Grande do Sul. Cotidiano este que mistura-se ao mistério de suas palavras e seus versos. Em “Aula inaugural”, ele sentencia: fora da poesia não há salvação. De fato, a poesia é a esperança da renovação, do amanhecer... “a luz dentro da noite”.

Minhas idas e vindas de metrô foram agraciadas com os textos de Quintana. Sugiro essa leitura a todos que querem começar o dia com mais poesia.

domingo, 14 de abril de 2019

O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago


O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, narra a história de um homem que, certo dia, vai até o rei pedir um barco. O pedido deixou a todos surpresos, principalmente a mulher da limpeza, responsável por abrir a porta das petições para saber o que as pessoas queriam.

Três dias depois do pedido, o rei vai até o homem.
Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. (Página 15).
O barco, então, seria para ir à procura da ilha desconhecida. Nosso protagonista refuta a ideia de que nos mapas estão todas as ilhas conhecidas. Após tanta demora para o rei decidir se daria o barco ou não, as pessoas que ali estavam à porta das petições esperando para serem atendidas, em coro, começaram a gritar “dá-lhe o barco, dá-lhe o barco”, pedido este que o rei não pode mais negar.

A mulher da limpeza, que a tudo assistia, saiu logo depois do misterioso homem, usando a porta das decisões. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira. (Página 24)

Após a entrega do barco e a chegada da mulher da limpeza, o homem vai atrás de uma tripulação. No entanto, volta sem ninguém, pois mais uma vez as pessoas afirmam que todas as ilhas já são conhecidas. Quando conversa com a mulher, temos um dos diálogos mais bonitos de todo o conto:
(...) mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o saber, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha o que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa.
Na primeira noite, o homem teve um sonho. Sonhou que tinha a sua tripulação e que eles levavam sementes, animais, entre outras coisas. Na última hora, a mulher da limpeza não quis mais acompanha-lo em sua busca pela ilha desconhecida. Ainda assim, os olhos dele continuaram a procura-la em todo o lugar...

Ainda no sonho, num dado momento, a tripulação encontra uma ilha conhecida e todos pedem para desembarcar. Eles levam tudo para a ilha, os patos, os coelhos, as galinhas, os bois... e o homem abandonado continua no barco. No entanto, quando ele precisou descer da embarcação, viu uma sombra ao lado de sua sombra.

Ao acordar, tinha em seus braços a mulher da limpeza. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, a Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.


Como diria Fernando Pessoa, "para viajar, basta existir"O Conto da Ilha Desconhecida é uma viagem pelo nosso mundo, a ilha que existe em cada um de nós.

domingo, 7 de abril de 2019

Você

Eu te perdoo por eu te trair
Como Chico
Aceito tuas lágrimas 
Perdão silencioso
Aceito teus desalinhos
Mas sou fiel ao meu desejo
Esqueci de te contar
Das horas que passei sozinho
À tua espera
Das noites que me arrependi
À luz do dia
Por ter lhe estendido a mão
Eu te perdoo por você ter sido tão rasa
E tão triste
Você me amou no exagero
E eu ri do meu desespero
Quando você me perguntou se eu te amava
E eu não soube dizer 
Eu te perdoo por você ter chorado
Tantas vezes que me perdi nos dias
Nos cigarros acesos
Na insônia da madrugada
Quando você não encontrava aconchego em meus braços
Eu te perdoo por eu ter batido a porta na tua cara
Ter te deixado falando sozinha
No acalento da solidão
Você foi poesia 
E eu te perdoo por isso também
Eu te perdoo pelo meu anseio de sair
E rodar exuberante longe de ti
Dos teus vestidos 
Dos teus cabelos
E agora a distância que nos separa é o perdão
Eu te perdoo por ter chegado
E te agradeço por ir.


domingo, 24 de março de 2019

Texto do ano passado das coisas passadas

Eu era sua fã
Você subia os degraus do pedestal sozinho
Mas eu te ajudava
Mostrava o caminho
Queria te ver perto do sol
Teu rosto iluminado pelo dia que era seu também
Você mandava chover, chovia
Eu era rio
Você mandava a tempestade, o vento cortava a minha pele
Eu era silêncio, mas estava sorrindo
O que mais eu poderia querer?
Tinha teu nome ao lado do meu
Tinha teus pés sobre o meu colo
Tinha a liberdade de não ser
Eu admirava teus passos
Teus sapatos
Tuas manchas de pele
Teu caminhar manco
Eu admirava o que entendia que era teu
Mas olhe só, eu era tua e não me gostava
Não me sobrava tempo no teu relógio
Teu tempo era outro
Meu tempo era o mesmo
Mas fiz questão de acertar os ponteiros
Até que o tempo foi todo teu
Meu caminhar se acostumou com a tua sombra
E no frio, com as tuas mãos macias
Um dia você me deixou na esquina
Da rua que eu conhecia
Da casa que era minha
Dos carros que me atravessavam
Não soube voltar sozinha
Mas você já tinha ido embora
Então eu andei sem tua sombra
Então eu andei sem tua mão macia
Parei quando encontrei um lugar desconhecido
Olhei em volta e vi minhas roupas
Meu cigarro
Meus cadernos todos de amores
Meu chinelo velho, meu armário envelhecido
Vi o tempo que me pertencia
Convidando-me para o aconchego de minhas horas roubadas
Meu tempo.
Tinha também um espelho
Olhei minhas unhas e não gostei da cor
Encarei meu cabelo e não reconheci o corte
A roupa não era minha
Aquela mulher não era eu
Era uma menina
Com os olhos cheios de lágrimas e desventuras
Com a pele marcada do tempo que havia passado
Teu tempo.
Meu tempo é outro
Teu tempo é passageiro
É raso, é raro
É marcado pelos segundos
Não, pelos milésimos de segundos
Meu tempo vem das horas
Conheci a vida assim
Vivendo de tempo infinito
Amando infinito
Sonhando infinito
Morrendo infinito
Teu tempo só sabe durar pouco
Eu vejo a passagem do tempo nas rugas do teu rosto
E vejo em minha pele o que teu tempo deixou.

terça-feira, 12 de março de 2019

O conto da Aia, de Margaret Atwood

“Tenho trinta e três anos. Tenho cabelos castanhos. Tenho um metro e setenta de altura descalça. Tenho dificuldade de me lembrar da aparência que eu costumava ter. Tenho ovários viáveis. Tenho mais uma chance.” (Página 173). 

Offred, nossa narradora, é uma aia. Na República de Gilead, isso significa algumas coisas. Significa, por exemplo, que ela é um pertence da casa do Comandante e de sua Esposa. Significa também que ela tem um único objetivo: procriar. 

“Somos para fins de procriação: não somos concubinas, garotas gueixas, cortesãs. (...) Somos úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes.” (Página 165)

Assim como as outras aias, Offred faz parte da casta responsável por gerar filhos dentro dessa realidade distópica. Devido a centenas de anos de poluição, o ar começou a ficar carregado com substâncias químicas tóxicas – o que causou a morte de muitas pessoas e a impossibilidade de algumas mulheres em gerar filhos. Sendo assim, as aias estão incumbidas de uma grande responsabilidade. 

E de uma grande opressão. 

Nesta sociedade, não existem mais revistas, livros, filmes; as placas com letreiros foram substituídas por imagens, já que a população não é mais alfabetizada; e aqueles que desobedecem às regras são fuzilados e expostos em praça pública, para servirem de lição aos rebeldes.

No entanto, Offred ainda se lembra de seu passado, um passado não muito distante, onde era casada, tinha uma filha, um emprego e até mesmo outro nome – o seu nome. Sua história nos é contada porque ela mantém a esperança de um dia saber onde está sua família. Mas em um lugar onde seus passos são constantemente vigiados, ela precisa tomar cuidado.

“Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a para alguém. Você não conta uma história apenas para si mesma. Sempre existe alguma outra pessoa.” (Página 52)

Confesso que fiz algumas pausas durante a leitura para assimilar aquelas duras linhas. Ainda assim, com socos no estômago, com situações análogas a nossa atual conjuntura, acredito que “O conto da Aia”, com toda a sua visceralidade, seja uma obra que precisa ser lida por todos nós. As distopias, afinal, não se distanciam muito de seu contexto de produção.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Não estamos vendo

Eu gostaria de ser mais corajosa para lhe dizer que esse vazio que habita em você até que é bonito. Esse ar melancólico combina com o concreto da cidade, com esse piercing pendurado no nariz. Mas não se trata apenas de ornar as coisas, não. É que alguém antes da gente inventou essa história de “tampa da panela”, “metade da laranja” e até hoje ninguém desdisse essas baboseiras. É por isso que compreendo a sua busca - e sua vontade quase palpável de se conectar a alguém. Queria eu me sentir assim de vez em quando - de vez em nunca. Deve ser louco mesmo. Estar com alguém e não se imaginar em outros lugares, com outras pessoas, aproveitando seu tempo de outra forma. Eu só consigo imaginar. Mas como venho tentando te dizer - esse vazio também pode ser liberdade. Pode ser, porque você quem decide o que vai fazer aí. Pode entulhar de flores, músicas, beijos e nomes... mas é bom se preparar para as pétalas espalhadas, murchas pelo chão; os acordes maçantes, repetidos à exaustão; os beijos sem nomes; os nomes sem definição... não digo isso para te desanimar, digo porque de permanente na vida, só a impermanência. Deixa esse vazio aí, então. É bom ter um cantinho seu. Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo - escreveu uma vez Guimarães Rosa. Guardadas as devidas proporções, acho que estamos deixando algo escapar. Anda, vem comigo. Vamos no samb, ver gente. Vamos compartilhar esse silêncio bom, nosso. Há tanto para se conhecer em sua recente liberdade. 

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Carcereiros, de Drauzio Varella


O segundo livro da trilogia sobre o sistema carcerário explora a realidade dos homens que mantinham o funcionamento do maior presídio da América Latina, revelando-nos seus dramas e desafios. Durante os vinte anos em que trabalhou como médico voluntário, Drauzio conheceu diversos agentes penitenciários - e tornou-se amigo de muitos deles.

Drauzio compartilha conosco histórias reais, de profissionais que acertam e erram, que levam uma vida simples, que precisam a todo o tempo tomar decisões importantes em um contexto muitas vezes esquecido pela sociedade. Por outro lado, o autor, de forma muito sutil, mas certeira, exprime sua opinião crítica a respeito dos problemas dos presídios, principalmente no capítulo “Fábrica de ladrões”, em que a crise penitenciária, com ênfase na superlotação dos presídios é discutida - e maneiras de combatê-la são apresentadas.

Mais uma vez, Drauzio retoma o massacre e a implosão do Carandiru, que foram citados inicialmente no primeiro livro da trilogia, especialmente em relação à invisibilidade do presídio até o primeiro acontecimento.

Até a morte dos 111, a Detenção só havia aparecido nos noticiários de rádio e tv e nas primeiras páginas dos jornais por ocasião da tentativa de fuga à mão armada que ocorreu em 1982. (...)
É inacreditável que um presídio daquelas dimensões tenha permanecido em anonimato silencioso por quase meio século (...).
 A única explicação para esse fenômeno está na invisibilidade social reservada aos excluídos.
 Todos os dias chegavam detidos e saíam em liberdade dezenas de homens, muitos dos quais responsáveis pelos sequestros, assaltos e homicídios que Rubem a tranquilidade das ruas. Como essa “escória social” tem suas origens na periferia da cidade, bairros e vilas por onde um bem-nascido jamais se aventura, seus membros enfrentam preconceito duplo: o primeiro por viver fora da lei, o segundo por ser pobre. Se tiverem pele escura, então, a discriminação será tripla. (Página 194).

A dimensão humana ganha espaço em sua obra; o desprezo pela vida dos outros é apontado, assim como nossa insistência em fingir que esses homens e mulheres cerceados de sua liberdade não existem. Quando comecei a ler essa trilogia, por curiosidade, não imaginei que fosse me sensibilizar tanto com as histórias que preenchem as páginas dos livros 1 e 2. Já reservei o terceiro livro na biblioteca do colégio. Tenho a certeza de que será a leitura mais difícil, pois trata-se da experiência do doutor Drauzio como médico voluntário em presídios femininos.