terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Não estamos vendo

Eu gostaria de ser mais corajosa para lhe dizer que esse vazio que habita em você até que é bonito. Esse ar melancólico combina com o concreto da cidade, com esse piercing pendurado no nariz. Mas não se trata apenas de ornar as coisas, não. É que alguém antes da gente inventou essa história de “tampa da panela”, “metade da laranja” e até hoje ninguém desdisse essas baboseiras. É por isso que compreendo a sua busca - e sua vontade quase palpável de se conectar a alguém. Queria eu me sentir assim de vez em quando - de vez em nunca. Deve ser louco mesmo. Estar com alguém e não se imaginar em outros lugares, com outras pessoas, aproveitando seu tempo de outra forma. Eu só consigo imaginar. Mas como venho tentando te dizer - esse vazio também pode ser liberdade. Pode ser, porque você quem decide o que vai fazer aí. Pode entulhar de flores, músicas, beijos e nomes... mas é bom se preparar para as pétalas espalhadas, murchas pelo chão; os acordes maçantes, repetidos à exaustão; os beijos sem nomes; os nomes sem definição... não digo isso para te desanimar, digo porque de permanente na vida, só a impermanência. Deixa esse vazio aí, então. É bom ter um cantinho seu. Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo - escreveu uma vez Guimarães Rosa. Guardadas as devidas proporções, acho que estamos deixando algo escapar. Anda, vem comigo. Vamos no samb, ver gente. Vamos compartilhar esse silêncio bom, nosso. Há tanto para se conhecer em sua recente liberdade. 

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Carcereiros, de Drauzio Varella


O segundo livro da trilogia sobre o sistema carcerário explora a realidade dos homens que mantinham o funcionamento do maior presídio da América Latina, revelando-nos seus dramas e desafios. Durante os vinte anos em que trabalhou como médico voluntário, Drauzio conheceu diversos agentes penitenciários - e tornou-se amigo de muitos deles.

Drauzio compartilha conosco histórias reais, de profissionais que acertam e erram, que levam uma vida simples, que precisam a todo o tempo tomar decisões importantes em um contexto muitas vezes esquecido pela sociedade. Por outro lado, o autor, de forma muito sutil, mas certeira, exprime sua opinião crítica a respeito dos problemas dos presídios, principalmente no capítulo “Fábrica de ladrões”, em que a crise penitenciária, com ênfase na superlotação dos presídios é discutida - e maneiras de combatê-la são apresentadas.

Mais uma vez, Drauzio retoma o massacre e a implosão do Carandiru, que foram citados inicialmente no primeiro livro da trilogia, especialmente em relação à invisibilidade do presídio até o primeiro acontecimento.

Até a morte dos 111, a Detenção só havia aparecido nos noticiários de rádio e tv e nas primeiras páginas dos jornais por ocasião da tentativa de fuga à mão armada que ocorreu em 1982. (...)
É inacreditável que um presídio daquelas dimensões tenha permanecido em anonimato silencioso por quase meio século (...).
 A única explicação para esse fenômeno está na invisibilidade social reservada aos excluídos.
 Todos os dias chegavam detidos e saíam em liberdade dezenas de homens, muitos dos quais responsáveis pelos sequestros, assaltos e homicídios que Rubem a tranquilidade das ruas. Como essa “escória social” tem suas origens na periferia da cidade, bairros e vilas por onde um bem-nascido jamais se aventura, seus membros enfrentam preconceito duplo: o primeiro por viver fora da lei, o segundo por ser pobre. Se tiverem pele escura, então, a discriminação será tripla. (Página 194).

A dimensão humana ganha espaço em sua obra; o desprezo pela vida dos outros é apontado, assim como nossa insistência em fingir que esses homens e mulheres cerceados de sua liberdade não existem. Quando comecei a ler essa trilogia, por curiosidade, não imaginei que fosse me sensibilizar tanto com as histórias que preenchem as páginas dos livros 1 e 2. Já reservei o terceiro livro na biblioteca do colégio. Tenho a certeza de que será a leitura mais difícil, pois trata-se da experiência do doutor Drauzio como médico voluntário em presídios femininos. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

os primeiros erros

queima
um pouco abaixo do sutiã 
por dentro
então, começa a subir, fazendo círculos
sinto frio nos pelos das canelas à mostra
e um tremor que começa nos dedos
toma o controle das minhas mãos
então eu preciso manter os cotovelos sobre a mesa
o calor que sobe fazendo círculos
encontra a minha garganta
as cordas vocais brincam, se agitam
e o som sai em outro compasso
sinto que ainda falta muito
há lenha para queimar
e queima.
não consigo andar assim
quando fogo encontra fogo
quando o encontro é confronto
eu espero.
murmuro aquela prece pra santo nenhum
ouço o silêncio e só 
eu espero,
eu escrevo,
então eu me atrevo a olhar de novo.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Persépolis, de Marjane Satrapi


Em 1979, Marjane, uma menina de 10 anos, vê sua vida mudar radicalmente com a revolução do regime xiita no Irã. Antes, a protagonista estudava em uma escola francesa e laica, considerada pelos novos líderes um símbolo do capitalismo mundial e da decadência. A partir desse momento, ela é obrigada a usar véu na escola e meninos e meninas são separados. 

O livro narra sua trajetória - da infância até o início da vida adulta - e todas as consequências de um regime opressor nas vidas dos cidadãos iranianos. Violência, perdas, drogas, abandono, mártires... todas essas questões compõem o universo de Marjane. As trevas lançadas em seu país obrigaram seus pais a tomarem uma difícil decisão. Em 1984, a jovem Satrapi vai morar na Europa.

A gente te ama tanto que quer que você vá embora. Preferimos você longe de nós e feliz do que perto e infeliz. Do jeito que as coisas andam, você ficará melhor lá do que aqui. 

Distante de sua família e de sua religião, Marjane se depara com outras realidades e com pessoas que nunca se aproximaram tanto de um ambiente de guerra como ela. Isso desperta o interesse de outros jovens pelas suas histórias. Contudo, ainda que tenha feito amizades, Marjane sente um vazio dentro de si.

Quanto mais esforços de integração eu fazia, mais tinha a impressão de me distanciar da minha cultura, de trair meus pais e minhas origens, de jogar um jogo que não era meu. Cada telefonema dos meus pais me lembrava a minha covardia e a minha traição. Eu estava ao mesmo tempo feliz em ouvi-los e incomoada em falar com eles. Se eles soubessem... se apenas soubessem que enquanto eles eram bombardeados diariamente a filha deles se maquiava como uma punk, fumava baseados para causar boa impressão, tinha visto homens de cueca, não diriam mais que eu era a filha dos seus sonhos. Eu me sentia tão culpada que mudava de canal assim que davam notícias sobre o Irã. Era insuportável demais.

Com maestria, Marjane emociona a todos os leitores. Seu relato autobiográfico em quadrinhos torna a leitura mais leve, ainda que tenha como pano de fundo a violência e a morte, tão presentes em qualquer regime autoritário. É difícil não se emocionar com algumas passagens, principalmente aquelas em que a protagonista repensa o rumo de sua vida. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Não é bem assim


O sorriso que mostra dentes perfeitamente alinhados, mascara a depressão.

O registro fotográfico feito naquela linda paisagem natural, destoa do quarto bagunçado e sombrio em que ele passa todas as noites.

A prosa quase poética, com pontuações meticulosamente bem colocadas, não narra a discussão que minutos antes dois amantes traçaram.

Brincamos de esconde-esconde o tempo todo. Até para os mais próximos, aqueles que conhecem nosso calcanhar. Somos bons em esconder a nossa dor. A tal ponto, que quando queremos senti-la, simplesmente porque há tempo e solidão, temos dificuldade em encontrá-la.

No entanto, se revirar do avesso pode ser perigoso. Quem é que suportaria estar ao lado de tamanha tragédia? Quem aguentaria a ausência plena dos disfarces tão comuns em nossas vidas? Do “boa noite” ao “bom dia”, há um abismo. Estou certa de que manter as aparências é uma forma de desviar a atenção do vazio que habita em nós.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Zen para distraídos, de Monja Coen e Nilo Cruz


Com uma simplicidade que revela a autora, este livro traz explicações sobre o que é o zen e comopodemos incorporá-lo em nosso cotidiano. Em suma, zen é quando, ao meditar-se, o eu observa o próprio eu, percebendo-se, então, interconectado a tudo o que existe.

Essa atividade, aliada a outros ensinamentos budistas, contribuem para uma melhora de vida considerável, ainda mais quando pensamos nos indivíduos que vivem em grandes centros urbanos e que lidam constantemente com distrações vindas de todos os lados. Dos ensinamentos, que vão desde compreender o carma, entender o nirvana até praticar o desapego, o que mais gostei foi sobre lidar com a dor e buscar o amor-próprio.

Não coloque o seu amor apenas naquilo que já se foi. Sua capacidade de amar é sua. Saiba amar a si mesma e se respeitar para poder encontrar outro amor verdadeiro. Abra mão. (Página 192)
Uma leitura tranquila, dessas que valem muitas marcações com post-its e reflexões após encerrar os capítulos. Sugiro para todxs que buscam o autoconhecimento. Quem sabe, incentivadx pela Monja Coen, você não começa a meditar? 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Menino do Rio

Não vou mentir, cara. Eu me assustei quando você se aproximou da minha mesa e se curvou para aproveitar a sombra do meu guarda-sol. A princípio, imaginei que você fosse mais um ambulante, vendendo amendoim ou queijo coalho. Em questões de segundos, percebi que você não carregava nada e, mais uma vez, fiquei ligeiramente preocupada. Que porra é essa?
- E aí, tudo bem? Eu vi que você tava fumando... me empresta o seu isqueiro?
- Pô, cara! Pega aí.
- Valeu.
Claro, só podia ser isso. Levou alguns minutos para o meu coração desacelerar, mas logo estava aproveitando a praia de novo. Essa foi a primeira vez que saí sozinha em uma viagem desde Vancouver e estava empolgada demais. Fiz amizade com as donas de um quiosque, comprei umas cervejas e relaxei... nos fones, uma música do Caê, meu companheiro de sempre. Alexandrino. Por essa eu não esperava, Caetano. Só você para citar Olavo Bilac em um funk. O vento fazia o meu cabelo balançar... a areia não me incomodou e o mar... ah, o mar...
- Dá licença? Desculpa te incomodar de novo, mas me empresta seu isqueiro?? Ah, e meu amigo gostou de você, será que você não quer ir lá conhecê-lo?
A tranquilidade me abandonou e deu lugar à confusão. Foi tão rápido – de novo -, que nem dei uma conferida no amigo dele antes de negar e agradecer a oferta. O cara do isqueiro era tão gente boa que sorriu, me cumprimentou como nós costumamos fazer em São Paulo (um gesto com as mãos que não dá tempo de explicar agora), acendeu o cigarro e foi embora.
Eu fiquei tão estarrecida que fui embora um pouco depois do ocorrido. Não sei explicar exatamente o que me incomodou, mas tenho lá as minhas suspeitas. Primeiro, achei estranho o cara ter se interessado por mim – não porque eu não sou uma mulher interessante, mas porque eu estava tão relaxada que devo ter coçado o umbigo algumas vezes. Em nenhum momento percebi qualquer olhar, talvez por estar tão concentrada em mim. Será que serei julgada por isso algum dia? Afinal, eu nem vi o cara. Não sei como ele é. Não sei descrevê-lo porque não quis buscá-lo em meio às mesas. 
Menino do Rio, quero voltar no tempo para saber quem é você.