sábado, 1 de junho de 2019

Maus, de Art Spiegelman


Art Spiegelman é o autor responsável por uma das melhores narrativas já feitas sobre o holocausto na Segunda Guerra Mundial. Publicado originalmente em 1980, “Maus” é uma história em quadrinhos sobre Vladek, o pai do autor, que viveu os horrores da guerra com a invasão dos nazistas na Polônia e, depois, sofreu nos campos de concentração para judeus.

Nessa HQ, os personagens são antropomorfizados, ou seja, são transformados em animais: os judeus são ratos, os nazistas, gatos, e os poloneses, porcos. Aliás, vale a pena lembrar que o título não é uma tradução de nosso adjetivo, o oposto de “bom”. O termo “maus” em alemão significa “ratos”.

Vladek Spiegelman mora em Czestochova, na Polônia. Conheceu Anja através de um amigo. Logo os dois se casaram e tiveram o primeiro filho, Richieu. Artie, nosso escritor, virá ao mundo apenas depois... No início da ascensão dos nazistas, o senhor Spiegelman é convocado para servir o exército. No fronte, torna-se prisioneiro de guerra. Disfarçado de polonês, ele consegue voltar para casa, “mas é perigoso. Os nazistas levam pro campo de trabalho todo mundo que violar qualquer leizinha. Pior, mesmo que você não infrinja a lei! E os que são levados, nunca mais são vistos...”. (Página 77)


Quando os negócios da família passam para as mãos dos alemães, Vladek tenta ganhar a vida de maneira ilegal. No final de 1941, tiveram de deixar a casa para morarem nos guetos. Richieu, ainda pequeno, foi entregue a uma mulher. Anja e Vladek achavam que assim ele estaria mais seguro... Por algum tempo, os dois ficam escondidos com a ajuda de outras famílias. Nos quadrinhos, para evitar que os identifiquem, eles utilizam máscaras de porcos, assim são reconhecidos apenas como poloneses.

Após algumas tentativas de fuga e de esconderijo, Vladek e Anja vão para Auschwitz. Recebem um registro numérico no braço e começam a trabalhar. Inicialmente, ele deu aulas de inglês para um capataz, ganhando, assim, um pouco de segurança ali. Depois, arranjou serviço na funilaria e na sapataria do campo.

Durante a leitura, nos deparamos com duas histórias. A primeira, sobre Vladek e, a segunda, sobre o processo de construção desta primeira narrativa. Por alguns anos, Artie visitou o pai e gravou suas lembranças sobre o holocausto. Sua intenção já era produzir esta HQ que temos em mãos. De certa forma, é uma obra metalinguística, o que a torna ainda mais sensível, uma vez que o autor mostra suas dificuldades, suas raivas e a tristeza que sente por tudo o que aconteceu com os seus pais, durante e depois da guerra. Mesmo com todo o sucesso com os primeiros quadrinhos de “Maus”, tudo o que ele quer é a mãe dele, que anos antes havia cometido suicídio (e não deixou carta).

Uma história que vai causar sensações diversas em você, querido leitor. Eu ri com a teimosia de Vladek, chorei com as despedidas, as mortes, as injustiças... é um relato tocante de um quadrinista sensível que eternizou as memórias de seu pai.

domingo, 19 de maio de 2019

Nas últimas semanas, li 3 HQs


O cão que guarda as estrelas, de Takashi Murakami, publicado originalmente em 2008, narra a jornada de um homem e seu cachorro, que juntos viajam ao interior do Japão em busca de um lar. Um romance delicado e ao mesmo tempo profundo, que revela o verdadeiro significado de companheirismo e amor. Esse foi o primeiro mangá que li na vida, presente de meu querido amigo André. Ansiosa pelas próximas leituras.



O Alienista, escrito por Machado de Assis e publicado em 1881, é adaptado nesta versão para os quadrinhos pelos irmãos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. A história, como bem conhecemos, é sobre um grande médico, o Dr. Simão Bacamarte, "filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas", que decide estudar a saúde da alma em Itaguaí (RJ). Foi, então, construída na mais bela rua da cidade, a Casa Verde, asilo destinado aos loucos da região. A princípio, todos ficaram felizes com a novidade e, principalmente, com a pompa da cerimônia de inauguração. Porém, quando pessoas consideráveis sãs começam a ser internadas, toda gente da cidade começa a desconfiar dos métodos do alienista.


Orgulho e Preconceito, "filho querido" de Jane Austen, ganha cores nesta versão de Ian Edginton e Robert Deas. O romance, escrito originalmente no fim do século XVIII, reflete a respeito da sociedade da época, especialmente no que diz respeito aos valores e condutas. Nesta adaptação, mantém-se a personalidade forte dos personagens principais, Mr. Darcy e Lizzy Bennet, e revela-se o encantador cenário da narrativa. Essa HQ foi presente da querida Juliana, colega do curso de Pedagogia.

Por enquanto, essas foram as HQs que li e pelas quais me encantei. Quais serão as próximas?

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Nova antologia poética de Mário Quintana

Ler Mário Quintana é sempre um prazer inenarrável. Gosto do poeta - e gosto de decorar alguns de seus versinhos que mais me cativam. “Eu queria trazer-te um versos muito lindos... / trago-te estas mãos vazias / que vão tomando a forma do teu seio.” Seus textos são assim, imagético, sintático e urgente. E de uma delicadeza que me deixa boba.

Nesta antologia, deixe-se levar pela visão cotidiana do poeta de Alegrete, cidade do Rio Grande do Sul. Cotidiano este que mistura-se ao mistério de suas palavras e seus versos. Em “Aula inaugural”, ele sentencia: fora da poesia não há salvação. De fato, a poesia é a esperança da renovação, do amanhecer... “a luz dentro da noite”.

Minhas idas e vindas de metrô foram agraciadas com os textos de Quintana. Sugiro essa leitura a todos que querem começar o dia com mais poesia.

domingo, 14 de abril de 2019

O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago


O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, narra a história de um homem que, certo dia, vai até o rei pedir um barco. O pedido deixou a todos surpresos, principalmente a mulher da limpeza, responsável por abrir a porta das petições para saber o que as pessoas queriam.

Três dias depois do pedido, o rei vai até o homem.
Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. (Página 15).
O barco, então, seria para ir à procura da ilha desconhecida. Nosso protagonista refuta a ideia de que nos mapas estão todas as ilhas conhecidas. Após tanta demora para o rei decidir se daria o barco ou não, as pessoas que ali estavam à porta das petições esperando para serem atendidas, em coro, começaram a gritar “dá-lhe o barco, dá-lhe o barco”, pedido este que o rei não pode mais negar.

A mulher da limpeza, que a tudo assistia, saiu logo depois do misterioso homem, usando a porta das decisões. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira. (Página 24)

Após a entrega do barco e a chegada da mulher da limpeza, o homem vai atrás de uma tripulação. No entanto, volta sem ninguém, pois mais uma vez as pessoas afirmam que todas as ilhas já são conhecidas. Quando conversa com a mulher, temos um dos diálogos mais bonitos de todo o conto:
(...) mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o saber, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha o que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa.
Na primeira noite, o homem teve um sonho. Sonhou que tinha a sua tripulação e que eles levavam sementes, animais, entre outras coisas. Na última hora, a mulher da limpeza não quis mais acompanha-lo em sua busca pela ilha desconhecida. Ainda assim, os olhos dele continuaram a procura-la em todo o lugar...

Ainda no sonho, num dado momento, a tripulação encontra uma ilha conhecida e todos pedem para desembarcar. Eles levam tudo para a ilha, os patos, os coelhos, as galinhas, os bois... e o homem abandonado continua no barco. No entanto, quando ele precisou descer da embarcação, viu uma sombra ao lado de sua sombra.

Ao acordar, tinha em seus braços a mulher da limpeza. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, a Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.


Como diria Fernando Pessoa, "para viajar, basta existir"O Conto da Ilha Desconhecida é uma viagem pelo nosso mundo, a ilha que existe em cada um de nós.

domingo, 7 de abril de 2019

Você

Eu te perdoo por eu te trair
Como Chico
Aceito tuas lágrimas 
Perdão silencioso
Aceito teus desalinhos
Mas sou fiel ao meu desejo
Esqueci de te contar
Das horas que passei sozinho
À tua espera
Das noites que me arrependi
À luz do dia
Por ter lhe estendido a mão
Eu te perdoo por você ter sido tão rasa
E tão triste
Você me amou no exagero
E eu ri do meu desespero
Quando você me perguntou se eu te amava
E eu não soube dizer 
Eu te perdoo por você ter chorado
Tantas vezes que me perdi nos dias
Nos cigarros acesos
Na insônia da madrugada
Quando você não encontrava aconchego em meus braços
Eu te perdoo por eu ter batido a porta na tua cara
Ter te deixado falando sozinha
No acalento da solidão
Você foi poesia 
E eu te perdoo por isso também
Eu te perdoo pelo meu anseio de sair
E rodar exuberante longe de ti
Dos teus vestidos 
Dos teus cabelos
E agora a distância que nos separa é o perdão
Eu te perdoo por ter chegado
E te agradeço por ir.


domingo, 24 de março de 2019

Texto do ano passado das coisas passadas

Eu era sua fã
Você subia os degraus do pedestal sozinho
Mas eu te ajudava
Mostrava o caminho
Queria te ver perto do sol
Teu rosto iluminado pelo dia que era seu também
Você mandava chover, chovia
Eu era rio
Você mandava a tempestade, o vento cortava a minha pele
Eu era silêncio, mas estava sorrindo
O que mais eu poderia querer?
Tinha teu nome ao lado do meu
Tinha teus pés sobre o meu colo
Tinha a liberdade de não ser
Eu admirava teus passos
Teus sapatos
Tuas manchas de pele
Teu caminhar manco
Eu admirava o que entendia que era teu
Mas olhe só, eu era tua e não me gostava
Não me sobrava tempo no teu relógio
Teu tempo era outro
Meu tempo era o mesmo
Mas fiz questão de acertar os ponteiros
Até que o tempo foi todo teu
Meu caminhar se acostumou com a tua sombra
E no frio, com as tuas mãos macias
Um dia você me deixou na esquina
Da rua que eu conhecia
Da casa que era minha
Dos carros que me atravessavam
Não soube voltar sozinha
Mas você já tinha ido embora
Então eu andei sem tua sombra
Então eu andei sem tua mão macia
Parei quando encontrei um lugar desconhecido
Olhei em volta e vi minhas roupas
Meu cigarro
Meus cadernos todos de amores
Meu chinelo velho, meu armário envelhecido
Vi o tempo que me pertencia
Convidando-me para o aconchego de minhas horas roubadas
Meu tempo.
Tinha também um espelho
Olhei minhas unhas e não gostei da cor
Encarei meu cabelo e não reconheci o corte
A roupa não era minha
Aquela mulher não era eu
Era uma menina
Com os olhos cheios de lágrimas e desventuras
Com a pele marcada do tempo que havia passado
Teu tempo.
Meu tempo é outro
Teu tempo é passageiro
É raso, é raro
É marcado pelos segundos
Não, pelos milésimos de segundos
Meu tempo vem das horas
Conheci a vida assim
Vivendo de tempo infinito
Amando infinito
Sonhando infinito
Morrendo infinito
Teu tempo só sabe durar pouco
Eu vejo a passagem do tempo nas rugas do teu rosto
E vejo em minha pele o que teu tempo deixou.

terça-feira, 12 de março de 2019

O conto da Aia, de Margaret Atwood

“Tenho trinta e três anos. Tenho cabelos castanhos. Tenho um metro e setenta de altura descalça. Tenho dificuldade de me lembrar da aparência que eu costumava ter. Tenho ovários viáveis. Tenho mais uma chance.” (Página 173). 

Offred, nossa narradora, é uma aia. Na República de Gilead, isso significa algumas coisas. Significa, por exemplo, que ela é um pertence da casa do Comandante e de sua Esposa. Significa também que ela tem um único objetivo: procriar. 

“Somos para fins de procriação: não somos concubinas, garotas gueixas, cortesãs. (...) Somos úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes.” (Página 165)

Assim como as outras aias, Offred faz parte da casta responsável por gerar filhos dentro dessa realidade distópica. Devido a centenas de anos de poluição, o ar começou a ficar carregado com substâncias químicas tóxicas – o que causou a morte de muitas pessoas e a impossibilidade de algumas mulheres em gerar filhos. Sendo assim, as aias estão incumbidas de uma grande responsabilidade. 

E de uma grande opressão. 

Nesta sociedade, não existem mais revistas, livros, filmes; as placas com letreiros foram substituídas por imagens, já que a população não é mais alfabetizada; e aqueles que desobedecem às regras são fuzilados e expostos em praça pública, para servirem de lição aos rebeldes.

No entanto, Offred ainda se lembra de seu passado, um passado não muito distante, onde era casada, tinha uma filha, um emprego e até mesmo outro nome – o seu nome. Sua história nos é contada porque ela mantém a esperança de um dia saber onde está sua família. Mas em um lugar onde seus passos são constantemente vigiados, ela precisa tomar cuidado.

“Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a para alguém. Você não conta uma história apenas para si mesma. Sempre existe alguma outra pessoa.” (Página 52)

Confesso que fiz algumas pausas durante a leitura para assimilar aquelas duras linhas. Ainda assim, com socos no estômago, com situações análogas a nossa atual conjuntura, acredito que “O conto da Aia”, com toda a sua visceralidade, seja uma obra que precisa ser lida por todos nós. As distopias, afinal, não se distanciam muito de seu contexto de produção.