domingo, 21 de março de 2021

Reminiscência

O esquecimento é uma benção. A memória escapa, a imagem recriada é turva, o pretérito é sempre imperfeito. Eu vejo compaixão em tudo isso - como se o mistério que é a vida nos acobertasse da dor de recordar tudo aquilo que fomos e de tudo aquilo que foram para nós. Se você lembrasse, meu velho, não haveria consolo possível para te oferecer. O tempo cura tudo, é verdade. O tempo se encarrega de nos deixar distraídos, enquanto a memória desaprende experiências. A recordação é também uma recriação. Pois que seja. 

Um dia de cada vez, uma lacuna permanente sobrepondo-se a outras. Eu gostaria de esquecer também. Eu gostaria de esquecer isso - assim a imagem ficaria turva para mim também; assim meu descuido seria uma benção. Conquanto eu me recordo. 

Nesse particular, a lucidez suscitou apenas o desgosto. Compreendo hoje que "obliterar" nunca foi um verbo possível para quem o almeja. O tempo permanece impassível; enquanto a distração protege os esquecidos.  

Pois que seja.

domingo, 13 de dezembro de 2020

O que é dito quando não se diz

O que eu queria dizer não cabe aqui. Não cabe nas linhas do poema. Não cabe nesse texto breve, brevíssimo. O que eu queria dizer não é dito por falta de entendimento mesmo. Mas eu sinto imenso. Como nomear? Eu gosto quando descubro os nomes das coisas. E há tantos nomes por aí... 

O que eu queria dizer não tem nome. Escrevo em busca de um sentido. Seria muito mais fácil perguntar, mas é que eu gosto demais da descoberta. Aquela euforia em evidência. Dura tão pouco.

O que eu queria dizer não está nem nas entrelinhas do poema. Está distante. E eu não compreendo.

Mas também há uma certa harmonia que mal posso acreditar. Sim, porque recorro aos nomes familiares quando me falta compreensão. Sinto que viver é oscilar entre nomear e reconhecer. 

Nomear,

E reconhecer.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Pergunta

Do desacerto. Do descompasso. 
Do silêncio. Do prolixo. 
Da ida. Da volta.
Da reminiscência.
Do porvir.
De tu,
De mim,
De nós.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Solstício

Escrevo sem as lentes para me amparar com a miopia. Escrevo assim porque a imagem de voltar à escrita me emociona e eu já posso sentir o formigamento que antecede as lágrimas. Eu nem sei o que vai sair. Escrevo neste lugar que não é sala, não é quarto, não é cômodo, mas acomoda minha rotina. Os últimos meses tenho passado aqui, preenchendo a acentuação da minha coluna com uma almofada fina, usando um volume único de uma gramática jamais consultada para deixar o computador à altura dos olhos - os meus e os outros. Eu nem sei quantos me veem, mas consigo estimar o quanto os meus  olhos deixam de captar: são dias de transição permanente - como o outono, que deixa de ser verão para ser inverno - e demora. O tempo passa em outro ritmo, mas sei que é o mesmo tempo de antes, porque os grilos continuam emitindo sua sonora presença e mais um dia se encerra. Eu sei que ainda sou eu porque minha vontade de ler Clarice permanece, porque ainda me encontro quando estou só, quando guardo os dispositivos móveis na gaveta, sobre os rascunhos encadernados. Há pouco quis arriscar algumas linhas e ainda estou aqui, arriscando... e deixando de riscar alguns itens das tarefas diárias. Devo continuar? Por quê? Para quê? Sei que ainda sou eu, mas minhas vontades foram descuidadas porque precisei cuidar de outras vontades - as maiores, as donas, as determinadas. Nesses últimos dias, dias finais de outono, vigio a transição. Espero as noites mais longas e os dias mais curtos, o cinza e a umidade do ar que penetra nas páginas amareladas do meu livro de fábulas. Espero o solstício - o não movimento. 
Coloco as lentes, por fim.
Há pausa.
A pausa.
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sábado, 15 de fevereiro de 2020

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis

A primeira edição de Úrsula é de 1859. Na época, a autora, Maria Firmina dos Reis, assinou com o pseudônimo de "Uma maranhense". De acordo com estudos recentes, esse romance pode ter sido o primeiro a ser escrito por uma mulher no Brasil ou, pelo menos, no Maranhão, além de também ser considerado o primeiro romance abolicionista brasileiro.

A estreia da romancista foi modesta, mas de extrema relevância para o cenário nacional: nossa literatura era monopolizada por uma elite composta por homens brancos e bacharéis. Portanto, Úrsula desde sua primeira edição rompe barreiras nesse contexto marcado pela exclusão.

Durante a leitura da obra, notamos uma narrativa ultrarromântica, característica da estética literária vigente, com uma construção singular de personagens, especialmente os escravizados. Diferente de outros clássicos brasileiros, Firmina desenvolve personagens com uma consciência que os protagonistas não possuem. Ainda que as mulheres e os homens negros presentes na narrativa não sejam centrais, eles são desenvolvidos a partir de um ponto de vista interno, extremamente sensível e fiel à narrativa oculta da escravidão no Brasil. 

Tal questão pode ser notada a partir das falas da mãe Suzana, uma senhora extremamente infeliz e nostálgica, que ainda se recorda de sua captura na África, da família que foi obrigada a abandonar e da vida sofrida como mulher negra escravizada no Brasil. Túlio, personagem também escravizado, expõe as injustiças consequentes da escravidão. No decorrer da narrativa, ambos refletem sobre a condição em que vivem, sobre o sistema escravista, bem como os mandos e desmandos de seus senhores.

O livro apresenta dois triângulos amorosos. O primeiro é composto por Adelaide, Tancredo e seu pai. Após desposar Adelaide, o pai de Tancredo obriga o jovem apaixonado a viajar para uma missão importante, prometendo que, após um ano, ele poderia se casar com a moça. No entanto, quando o noivo retorna, encontra um cenário impensável: sua mãe está morta e seu pai casou-se com Adelaide. 

Destruído, Tancredo vai embora e seu destino muda mais uma vez quando ele é salvo por Túlio, um homem escravizado que leva o jovem para a casa de sua senhora. Logo os dois tornam-se amigos e o protagonista alforria Tulio, estabelecendo entre eles uma relação de gratidão que permanece até o fim de suas vidas. 

O tempo que Tancredo ficou hospedado na casa de Luiza B., enquanto se recuperava do acidente, foi o suficiente para que o rapaz se apaixonasse perdidamente por sua cuidadora, a jovem Úrsula. O amor dos dois torna-se cada vez mais latente, até que Tancredo, completamente recuperado, pede a mão de Úrsula à sua mãe, Luiza B.

Tudo caminha bem até que o comendador P., tio de Úrsula, é tomado por uma paixão pela sobrinha e a a obriga a se casar com ele. Temos, então, a formação do segundo triângulo amoroso, formado por Tancredo, Úrsula e seu tio. A paixão súbita do comendador será fatal para os protagonistas e determinará o futuro das personagens.

Apesar de não ser fã da estética literária romântica, indico o livro a todas e a todos que acompanham meu blog. Estamos falando de uma narrativa escrita por uma mulher negra, professora e nordestina que, com o pseudônimo de "Uma maranhense", penetrou as camadas finas da bolha literária, formada exclusivamente por homens brancos e pertencentes à elite brasileira, e tornou-se a primeira romancista do nosso país.

sábado, 25 de janeiro de 2020

O barco

Um professor muito querido e pragmático me escreveu: Ana, está na hora de conduzir o barco. Eu li essa frase e instantaneamente imaginei sua mão em meu ombro e seus olhos por trás das lentes me fitando. Antes de conduzir o barco, suas palavras me acalentaram, como a neblina da serra que anuncia o litoral. E me percebi pensando: durante todos os meus vintes - e antes, eu estava no barco. Eu observei uma variedade imensa de barqueiros enfrentando o mar, o sol, o frio, os viajantes. Eu admirei boa parte deles, especialmente aqueles que não se cansavam com as minhas infindáveis perguntas e também os que confiavam um dos remos a mim. Até me apaixonei por um pescador que, enquanto remava, falava de si e de suas aventuras no mar... e continuei viajando, caminhando pela areia, sonhando com o barquinho... 

Até que a anunciação chegou e eu senti medo do mar. Como poderia entrar com tantos riscos? Teria sido imprudente todo esse tempo? Mas está na hora, meu professor me lembrou. Está na hora de conduzir o barco.

...

Não consigo mais enxergar a praia. A imensidão azul de uma vida inteira.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire

Publicado originalmente em 1996, Pedagogia da Autonomia é, como colocado por Paulo Freire, um livro otimista. A esperança do patrono da educação brasileira é uma pedagogia fundada na ética, no respeito à dignidade e à autonomia do educando. 
Ao longo dos três capítulos, Freire discorre sobre vários assuntos caros, como a responsabilidade ética dos educadores, a ausência de neutralidade no fazer pedagógico, a diferença entre autoridade e autoritarismo de modo esclarecedor e humilde, como sempre foi em suas aulas e palestras.
Para mim, é um prazer ler e reler Paulo Freire porque sempre aprendo com a sua experiência. Este é um livro que certamente indico para os meus colegas de profissão. Muitos dos sonhos do patrono da educação ainda não foram concretizados. Quem sabe, um dia, poderemos dizer que nossa prática educativa é mais gentil, pautada no respeito, na ética e na esperança.

Observação: o comentário está mais curto do que o normal porque estou com dor de cabeça e, infelizmente, não consigo escrever mais. 😢