terça-feira, 3 de julho de 2018

Leitura da semana: O último voo do flamingo, de Mia Couto


Os primeiros anos após a indenpendência de Moçambique foram cruéis para os moçambicanos. A terra já não aguentava mais o sangue manchando sua superfície, sangue de uma nação inteira destruída pela ganância que só a guerra pode gerar. É nesse contexto em que Mia Couto desenvolve sua narrativa fantástica. O último voo do flamingo, publicado pela Companhia das Letras em 2005, é mais um romance que conduz o leitor a uma viagem ao longíquo continente africano, mais especificamente Moçambique, país de origem do nosso autor e de tantos anos de colonização portuguesa - e de todas as violências decorrentes dessa exploração.

A narrativa acontece em uma pequena vila fictícia, situada no interior do país, chamada Tizangara. Certo dia, alguns moradores encontram um pênis na Estrada Nacional. Em cima de uma árvore, avistam um boné que pertence a um soldado das Nações Unidas. Contando com esse caso, seis soldados da ONU explodiram de forma inexplicável em solo africano, cujos únicos rastros são o órgão decepado e o boné. 

"Morreram milhares de moçambicanos, nunca vos vimos cá. Agora, desaparecem cinco estrangeiros e já é o fim do mundo?" (p.32).

Para investigar esse caso, é convidado o italiano Massimo Rissi, inspetor da ONU. Para acompanhá-lo, o administrador da vila, Estevão Jonas, um homem corrupto, diga-se de passagem, chamará um tradutor, que também será o narrador da história. A tradução é necessária para além da compreensão do idioma local. Em vários momentos, o italiano compreende os dizeres, mas não o que eles significam. Dessa forma, a fim de entender aquele mundo, Rissi precisará despir-se de seu eurocentrismo. 

Essa viagem pelo pequeno território de Tizangara perpassará a cultura local, suas tradições e suas personagens mais atraentes, como Ana Deusqueira, a prostituta da vila, Temporina, uma "velha-moça", e também Sulplício, pai do tradutor, que carrega em si toda a ancestralidade de sua terra. Cada personagem é único, poético e fantástico ao seu modo.

O último voo do flamingo é a esperança de um recomeço, de uma luz que alcançará toda a escuridão da ganância - por um lado, dos estrangeiros que partilharam a África como um pedaço de bolo, e, por outro, dos locais ambiciosos que se esquecem do quanto aquela terra já sofrera devido à cobiça humana.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Conheci o sociólogo e escritor Jessé Souza

Ontem, 19 de junho, o sociólogo e escritor Jessé Souza foi à Livraria Cultura para lançar seu mais novo livro: Subcidadania brasileira - para entender o país além do jeitinho brasileiro. Como estou estudando uma de suas obras na disciplina Sociologia da Educação e gostando muito, diga-se de passagem, fui até lá para ouvi-lo um pouquinho e ganhar seu autógrafo.


Eu não sei vocês, mas eu AMO conhecer escritores!

Leitura da semana: Kaschtanka e outras histórias de Tchékhov


Na semana passada, pedi sugestões de autores russos para uma amiga que especializou-se na área. Gentilmente, ela emprestou-me um de seus livros, o Kaschtanka e outras histórias, do médico e maior contista da literatura russa: Tchékhov. Publicado em 2015 pelo selo Boa Companhia, o livro reúne 7 contos, dentre eles, "Vanka", "Brincadeira", "Ninharias da vida" e "Kaschtanka", que deu título à antologia.

Ainda que eu não seja estudiosa no assunto, essa breve leitura mostrou-me a leveza e, ao mesmo tempo, a profundidade com que o autor narra o que é cotidiano, comum, ordinário. Utilizando-se de poucas páginas (o conto mais logo possui 26 páginas), suas histórias prendem a nossa atenção e, mais do que isso, nos sensibilizam. 

Como é possível dizer tanto com tão poucas palavras? Tchékhov, inquestionavelmente, era mestre nessa habilidade.

Quero compartilhar com vocês alguns trechos que marcaram a minha leitura:

"Depois do beijo, veio outro beijo, depois juras, protestos... Felizes momentos! Entretanto, nesta vida terrena não existe nada inteiramente feliz. A felicidade costuma trazer veneno em si mesma, ou é envenenada por algo externo." (Páfina 50, 2015).

"- Como lhe direi? - falou ele e encolheu os ombros. - A mamãe de fato nunca está boa de todo. Pois se ela é mulher, e as mulheres, Nikolai Ilitch, têm sempre alguma coisa que está doendo." (Página 72, 2015).

"Aliocha aninhou-se num canto e, cheio de horror, pôs-se a contar a Sônia como ele fora enganado. Ele tremia, gaguejava, chorava; era a primeira vez na vida que ele se chocara assim, grosseiramente, face a face, com a mentira; antes disso, ele não sabia que neste mundo, além de peras, pasteizinhos e relógios caros, existem ainda muitas outras coisas, que não possuem nome na linguagem infantil." (Página 78, 2015).

Estou encantada, leitores. A Copa do Mundo trouxe-me essa curiosidade pela literatura russa e preciso confessar: conhecer esse universo está sendo, para mim, muito mais animador do que assistir aos jogos.

domingo, 10 de junho de 2018

Professora do apoio de produção textual


Oi, leitores! Tudo bem com vocês?

No vídeo de hoje, comentei sobre as minhas funções como professora do apoio de produção textual. Espero que você gostem do vídeo.

terça-feira, 5 de junho de 2018

O menino grapiúna, de Jorge Amado


No ano de 1981, Jorge Amado publicou seu livro de memórias, "O menino grapiúna", uma autobiografia de sua infância em Itabuna, no sul da Bahia. Ali nasceu em 1912, filho de João Amado de Faria e Eulália Leal, donos de uma fazenda de cacau. 

Aliás, é importante citar o fruto, que se ligará à infância de Jorge Amado e que será evocado em muitas de suas narrativas. O cacau, naquele tempo, era muito cultivado na região e será motivo de muitas riquezas e adversidades.

Organizado em capítulos curtos, cada página nos convida a conhecer o a meninice de nosso amado escritor. São histórias de seu tio Álvaro, sua relação com as chamadas "mulheres perdidas", sempre tão maternais com ele, a trajetória do vizinho José Nique, que estava sendo perseguido por soldados da polícia militar e a sua derradeira entrada ao internato, que causa-lhe extremo descontentamento - a tal ponto que o menino grapiúna decide fugir de lá.

"Para o menino grapiúna (...) o internato no colégio dos jesuítas foi o encarceramento, a tentativa de domá-lo, de reduzi-lo, de obrigá-lo a pensar pela cabeça dos outros. A intenção do pai era apenas educá-lo no melhor colégio, o de maior renome. Não se dava conta de como violentava o filho." Página 51.

Os tempos de colégio, todavia, não foram completamente inúteis. Ali, Jorge Amado conheceu o padre Luiz Gonzaga Cabral, professor de Língua Portuguesa que ensinou o menino a amar a literatura, que despertou a sensibilidade dos alunos durante as leituras de Os Lusíadas, que foi o primeiro a anunciar o futuro de Amado como escritor. 

Por fim, o livro conta com um posfácio escrito por ninguém menos que Moacyr Scliar. O escritor gaúcho compartilha conosco as suas lembranças de garoto, quando conhecera Jorge Amado. Além disso, há uma breve biografia sobre este - sua infância, seu envolvimento com política e suas obras mais relevantes.

O menino que se tornaria o grande escritor que conhecemos está nas páginas desse livro, tão cheio de memórias encantadoras sobre sua infância. É nesse período em que a sensibilidade, o olhar para as minorias serão formados - valores que o acompanharão no decorrer de toda sua obra literária. 

sábado, 2 de junho de 2018

A menina sem palavra, de Mia Couto


Quem me conhece sabe que sou apaixonada pelo escritor moçambicano Mia Couto. Aliás, já disse uma vez que existem duas Anas: antes de ler Terra Sonâmbula e depois de ler Terra Sonâmbula. Sua prosa poética cativou meus sentidos desde as primeiras páginas, desde o primeiro contato com Muidinga, o velho Tuahir e o Kindzu.

No post de hoje, quero compartilhar com vocês a minha última leitura: A menina sem palavra, um livro que seleciona alguns contos de Mia, tendo a infância como fio condutor. As dezessete narrativas que compõem a obra trazem um misto de realidade e fantasia, tão presentes na prosa do escritor moçambicano. Dentre os textos, os que mais gostei são: O dia em que explodiu Mabata-bata, A menina do futuro torcido e, claro, A menina sem palavra.

Uma leitura de metrô que me acompanhou durante uma semana. Não preciso dizer que deixou as minhas idas e vindas ao trabalho muito mais poéticas. 

Turistando em São Paulo: Cemitério da Consolação


Oi, leitores! Tudo bem com vocês?

Na última quinta-feira, fui conhecer o Cemitério da Consolação, que é praticamente um museu a céu aberto. É a mais antiga necrópole de São Paulo, fundada em meados do século XIX. Foi uma tarde de muito aprendizado... 


  

 O cemitério oferece visitas guiadas "para quem quer conhecer as belezas da arte tumular da necrópole e aprender mais sobre as personalidades públicas sepultadas no local, revivendo grande parte da história de São Paulo". Mais informações aqui